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Orgulho de Nossas Raízes

“O Glauber [Rocha] sempre me dizia ‘a gente tem que produzir Malês pra você dirigir’. A gente conversou sobre isso em um dos últimos momentos que o vi, antes dele morrer.”
— Antônio Pitanga
– Em entrevista para ‘A Tarde‘, em 11.06.2022
Antonio Pitanga
83 Anos
Antonio Luiz Sampaio[1] (Salvador, 13 de junho de 1939) é um ator brasileiro.
*Observação: O aniversariante e sua família, comemoram o nascimento de Antônio no dia 6 de junho. Não conseguirmos saber a razão para a existência de duas datas. Na Wikipédia, continua a data de 13 de junho.
Mais conhecido pelo nome de Antonio Pitanga.
O sobrenome Pitanga veio do seu papel no filme Bahia de Todos os Santos. Para fazer valer os votos em seu nome quando disputou cadeira na câmara dos vereadores do Rio de Janeiro, tornou-o oficial.
“Os Malês eram os negros do norte da África, que falavam árabe e tinham conhecimento da Física, da Ciência e da Aritmética. Esses caras fizeram uma aliança com os negros do candomblé pra tomar o poder. Não é a história de negros coitadinhos do Pelourinho, são negros que detinham o conhecimento em 1835. Eles são de religião islâmica e compuseram um exército com os negros do candomblé, do catolicismo, e tiveram a capacidade, esse gesto nobre, de compor um exército assim.”
— Antônio Pitanga
– Em entrevista para ‘Carta Capital‘, em 11.06.2022
No cinema fez O Homem que Desafiou o Diabo (2007), Zuzu Angel (2006), Vila Lobos, Uma Vida de Paixão (2000) e mais 54 filmes.
Na televisão participou de novelas como O Clone (2001), Celebridade (2003), A Próxima Vítima (1995) e mais 32 trabalhos, entre novelas e séries. No teatro participou da primeira montagem da peça Após a Chuva (2007/2008)
Vida Pessoal
Foi casado com a atriz Vera Manhães, com quem teve dois filhos que também são atores, Rocco Pitanga e Camila Pitanga.
Antonio Pitanga com a ex-esposa Vera Manhães e sua filha, Camila Pitanga, ainda bebê.
Atualmente está casado com Benedita da Silva, ex-governadora do Rio de Janeiro.
Benedita da Silva e Antonio Pitanga.
Entrevista – Carta Capital
Antônio Pitanga: “A sociedade branca bebe, come e dança a cultura negra”
— Entrevista com Antônio e Camila Pitanga, feita por Larissa Ibúmi Moreira, historiadora, feminista interseccional e escritora
— Publicado em Carta Capital, em 05/02/2017.
Pai e filha, os atores Antônio e Camila Pitanga falam sobre a política e a história do negro no Brasil e sobre o documentário biográfico ‘Pitanga’.
Marcando sua estreia como cineasta, Camila Pitanga esteve na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes para a exibição do aclamado Pitanga, documentário dirigido em parceria com Beto Brant, que conta a trajetória artística, política e filosófica de seu pai, o também ator Antônio Pitanga, em conversas descontraídas com seus amigos, ex-amores e companheiros de profissão.
Antonio Pitanga com seu filho, Rocco Pitanga.
Projetado em praça pública, no histórico Largo das Forras, o filme sensibilizou a plateia, fez rir e inspirar, alçando o prêmio de melhor longa-metragem pelo júri popular. Está previsto para estrear nos cinemas em abril deste ano.
Os Pitanga, pai e filha, conversaram com CartaCapital sobre o documentário, a questão da mulher negra e a política e a história do negro no Brasil. Confira:
CartaCapital: No documentário, você afirma que negros e mulheres devem se unir, pois compartilham um lugar comum de opressão nesta sociedade. Considerando que a mulher negra sofre duplamente pelo racismo e pelo machismo, como vocês veem o papel do homem negro na luta das mulheres negras?
Antônio Pitanga: Por que não ser aliado? Se acontecer alguma revolução cultural ou social, ela será feita por homens negros e mulheres negras. Por que eu vou ser superior, porque sou homem? Essa cultura machista foi esculpida pelo colonizador branco. Não é minha, não é nossa. Tenho a certeza absoluta que se trata de uma pobreza intelectual e de sentimentos quando o negro não entende a mulher negra e quer fazer dela exatamente o que o branco faz com ele.
Por isso eu entendo minha mãe, Maria da Natividade. Filha e neta de escravas, ela tinha um comportamento de jamais abaixar a cabeça – e trabalhava pros brancos sem salário. Não é porque ela está como uma serviçal que entendia seu potencial e sua riqueza intelectual. Tudo de ruim foi colocado para nós e vamos querer dominar a mulher negra, fazer o que o branco faz com a gente?
Nossa contribuição nessa sociedade brasileira é muito maior. Essa sociedade branca, que não reconhece a gente, bebe, come e dança a nossa cultura. Até na maneira de se expressar, tudo vem de nós. A formação do homem vem da África. Mas temos dificuldade de entender.
Camila Pitanga: No documentário, a personagem da Léa Garcia fala “eu não vou ser escrava nem de branco, nem de negro”. Infelizmente, essa cultura escravocrata não é só uma relação de submissão e de opressão do branco sobre o negro. Muitas vezes, ela é também mantida na relação do negro com o negro e do negro contra a negra.
CC: Antônio, você viveu um período no continente africano, em missão cultural. Como essa experiência se refletiu em sua vida enquanto um artista negro brasileiro?
AP: A África sempre foi um desejo. Vim de uma família muito pobre e não entendia, quando criança, que teria essa chance de ir para lá. Quando enveredei para o mundo artístico, já comecei a enxergar a possibilidade de isso acontecer.
Escolhi uma profissão que é uma janela para o mundo. Os artistas, todos éramos considerados marginais. Eu já era perseguido e já compreendia o preconceito da frase “é negro e ainda vai ser artista?”. Escolhi “vou por ali”, contra esse sistema.
Eu não fui para Europa, como tantos amigos que tiveram que sair do país em 1964.Escolhi o exílio na África porque queria saber de qual África eu tinha vindo. Tinha noção de que a minha parte e da minha família foi queimada pelo Rui Barbosa. Aqueles papéis que eu poderia buscar, eu não tinha mais.
Saí do Brasil pela porta da frente, em missão cultural, em pleno governo Castelo Branco, porque tinha uns fãs no Itamaraty que admiravam o nosso trabalho.
E eu escolhi passar quase dois anos caminhando por alguns países que tivessem o dialeto, a língua, as danças, a culinária, mais próximos e que eu pudesse entender e me achar. Escolher a África já é uma atitude política.
Com o apoio dos camaradas do Itamaraty, que eram fãs do Cinema Novo, consegui exibir três filmes, Barravento, Ganga Zumba e Esse Mundo é Meu para os presidentes de países como Gana, Nigéria, Senegal. Queria mostrar também como os negros brasileiros se comportavam e como estavam.
Era também pra eles uma revelação primeira. Com a luta pela consciência dos seus direitos e para expulsar o colonizador, não tinham tempo pra ainda entender o Brasil.
Fiz essa caminhada para entender o ser Pitanga, de onde essa família tinha saído, já que nós viemos de vários carregamentos. Viajei para estudar, debater, mostrar o negro brasileiro e como nós estávamos reagindo à opressão. Tive muitos problemas com embaixadores da África Branca, que não entendiam o que eu estava fazendo ali.
CC: Nessa África revisitada, o que você descobriu?
AP: Eu achava que vinha da Nigéria e realmente sou de lá, de Daomé, me achei ali. Isso me humanizou. Já tenho 77 anos e fico tentando entender essa incapacidade da raça negra de não entender o coletivo.
Meu ídolo em toda essa formação do Brasil é o Luiz Gama. A gente tem que entender a trajetória desse rapaz, advogado, filho de Luisa Mahin e de um fidalgo. Com 10 anos, ele é colocado na mesa de jogo e faz parte de um lote [de escravos] que vai para o Rio de Janeiro. Era essa criança, nascida livre e tornada escrava.
Como rábula [nome dado a quem advoga sem ter diploma], Gama consegue livrar do açoite centenas de milhares de negros. O enterro dele foi disputado a tapa pra segurarem o caixão. Ele botava o dedo na ferida e convencia a sociedade branca que ela estava errada.
Fico com dificuldade de entender como nossos iguais não elegem uma fonte de conhecimento.Eu sou de uma família com um percentual de representatividade acima de 50%, nós negros somos maioria e não nos entendemos. Que dificuldade é essa?
As lutas do passado continuam. A dívida é muito grande e antiga com a comunidade negra. Meus filhos não tiveram nenhuma perseguição, mas não é por isso que eles não têm essa consciência.
Quando você liga a televisão pra ver uma dramaturgia, o percentual é de quase zero negros, mas, mesmo assim, a maioria assiste e não te elege, prefere eleger o branco de olhos azuis. O meio de comunicação é o “vil metal”. É preciso eleger os seus, num reconhecimento de si mesmo.
Eu não quero enxergar o mundo por uma fresta, quero abrir todas as portas e janelas, ver a claridade entrar. Eu seria muito mais se a nossa sociedade [elegesse] Ruth de Souza, Léa Garcia, Zezé Motta. Precisamos reconhecer o seu valor, oferecer o mesmo reconhecimento expressado que o branco tem. Você pega um Tarcísio [Meira] – nós viemos da mesma época – onde está o Tarcísio e onde está o Antônio Pitanga?
Estou firme, mas não pelo reconhecimento de nossa sociedade. Já o Tarcísio está vários corpos na minha frente. Hoje temos pessoas como a Camila [Pitanga], como a Tais [Araújo], a Sharon Menezes, o Lázaro Ramos – tiro o chapéu pra eles.
No meu caso, no de Milton, Abdias [do Nascimento] ou Grande Otelo, o preconceito era radical.
Milton Gonçalves e Antonio Pitanga.
Agora já estamos em uma sociedade que reconhece o talento deles. Nós, no passado, éramos desbravadores, não tivemos o peso do reconhecimento de nossa sociedade.
Claro, ainda há um mito da democracia racial. Se você assistir os filmes que eu fiz, a altivez do ator e do personagem é a mesma. Precisamos criar aliados. Entender que você tem uma janela e pode compor com outras pessoas.
CC: Você pode adiantar pra nós sobre o seu novo projeto, um filme que vai contar a Revolta dos Malês?
AP: Os Malês eram os negros do norte da África, que falavam árabe e tinham conhecimento da Física, da Ciência e da Aritmética. Esses caras fizeram uma aliança com os negros do candomblé pra tomar o poder. Não é a história de negros coitadinhos do Pelourinho, são negros que detinham o conhecimento em 1835. Eles são de religião islâmica e compuseram um exército com os negros do candomblé, do catolicismo, e tiveram a capacidade, esse gesto nobre, de compor um exército assim.
Eu sou malês. Então, quero ter essa altivez, essa generosidade, essa maneira de enxergar o outro e crescer com outro, embora tenha uma opinião diferente. Não é porque sou negro que tenho que ser sambista ou jogador de futebol. Não é por isso que vou deixar de ser negro.
Eu quero ter minha opinião. Se eu não fui um negro alforriado, não fui um escravo, sou um negro liberto e saí das correntes. Mandar em mim não dá. Eu prefiro ser esse negro em movimento, para ter a capacidade de pensar, avançar e recuar. Por isso, nada contra os movimentos negros, mas eu sou um capoeirista mental. Depois que entendi que tinha asas para voar, quero voar.
CC: Você tem encontrado dificuldades para a realização do filme?
AP: Quero contar uma história da nossa família, da nossa sociedade e dos nossos irmãos. Sobre onde nasce o levante mais importante que aconteceu nesse País, quando os negros oprimidos entenderam que eram mais de 60% da população baiana. Muitos malês já vinham com culturas de liberdade da África e acreditavam que iriam inaugurar o islamismo no Brasil. Eles tinham uma estratégia de tomar o poder, como tinha Napoleão Bonaparte.
Não é só contar a nossa história, mas a história brasileira. O Brasil não conhece o Brasil. É uma maneira de você, através dos Malês, entender a própria história desse país e também do negro entender sua própria história.
Ainda estou captando recursos para esse projeto, mas digo abertamente que estou ali como uma missão: ele não é meu, estou ali como instrumento.Gostaria de entregar esse filme ao Ministério da Cultura e ao Ministério da Educação para ser exibido em praça pública, nas comunidades, nas vielas, nos becos. Um filme que a gente tenha oportunidade de revisitar nossa própria história.
José Celso Martinez e Antonio Pitanga.
CC: O que mudou durante os governos Lula e Dilma no meio artístico e social? Como você vê o contexto político que estamos vivendo?
AP: Eu já vivi várias épocas: a Guerra Mundial, o golpe do Dutra, Getúlio Vargas, o golpe de 1964. Vi o mundo dar uma guinada de 180 graus, toda a revolução, os direitos das mulheres, a chegada da camisinha, da pílula, do homem na Lua. Vi até um zepellin em 1949.
Vi os Filhos de Gandhi rasgarem o ventre da Bahia quando era proibido o negro desfilar. Vi Grande Otelo, Ruth de Souza e vi Leá Garcia ganhar a Palma de Ouro. Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho – pessoas como eu, que estavam na estrada, me passaram o bastão e eu continuei essa história.
Vi a chegada do negro no cinema. Evoluímos e tomamos os espaços. Hoje, em 2017, eu vejo o negro chegar um pouco mais. Conquistamos muitas coisas na política, mas vejo a regressão e que tivemos algum tempo no poder, mas sem tomar conta de todo esse ganho.
Se tivéssemos tomando conta, não viveríamos essa situação delicada de eu estar com 77 anos e viver outro golpe.
Agora, teremos que reinventar. Eu quero ter força pra viver de novo os momentos que vivi com a distribuição de renda feita por Lula e Dilma. Esse filme eu já vi.
Estou muito preocupado, porque agora são meus filhos, netos e bisnetos, são esses jovens que estão começando a caminhar com suas próprias pernas. Precisamos respirar um pouco e pensar de que maneira vamos enfrentar essa tempestade.
É um momento que jamais pensaria, de um grau de embrutecimento da nação muito grande. Já lutamos contra isso. É 2017 e estamos passando por isso de novo? Que capacidades teremos pra detectar o grau dessa tempestade e continuar de pé com dignidade de entender e participar da luta do outro? É um momento que estou querendo entender.
CP: Acho estamos vivendo um momento no qual as pessoas querem se entrincheirar em um só lugar. Precisamos ter um entendimento dialético da vida, no qual a gente não pode ficar num só lugar. Precisamos repensar, dialogar com todos e se colocar na posição de todos. Uma mulher, claro, principalmente as mulheres negras, sofrem de maneira atroz e doída uma série de opressões que eu mesma ainda não tenho a dimensão na minha carne. Mas, como ser humano, estou aberta para ver o outro. Eu sei disso e sei também precisamos falar muito disso, gritar muito, pra contrapor.
CC: Antônio, qual o conselho você daria hoje para essa nova geração de artistas negros?
AP: O artista negro, década a década, tem-se colocado de uma maneira maravilhosa com a música, as artes plásticas e com a dança. Mas em que momento a gente entende essa contribuição no coletivo, que não seja só pra um? Que não seja só para dançar pra alguém bater palma?
O conselho que eu dou é que o jovem possa entender sua raiz, possa se comunicar mais com o outro – o outro tem muita história pra contar, já que nós viemos de várias Áfricas.
Eu perguntaria: de que maneira você pode alimentar o outro e vice-versa? Para quem você está escrevendo, grafitando, contribuindo? Você tem que entender quem é você e qual é o seu papel.
E é um papel valiosíssimo, pois seus irmãos ainda são perseguidos, oprimidos, sofrem preconceito, suas irmãs, ganham menos do que o homem negro.
É a revolução do conhecimento. Procure olhar no espelho, quem sou eu? Acho que é entender seu habitat intelectual, sua formação, a maneira de discutir, defender e colocar sua questão, sem medo de se expressar.
A gente acha que não pode incomodar. Eu quero incomodar, vim para incomodar. Às vezes eu fico muito triste com nossos irmãos, que querem mais contentar uma sociedade opressora do que entender os nossos.
*Larissa Ibúmi Moreira é historiadora, feminista interseccional e escritora.
Entrevista – Extra/Globo
Camila Pitanga declara seu amor ao pai: ‘Ele é a pessoa que mais admiro’
Fonte: Extra/Globo
Naiara Andrade, em 14/08/16
Tipicamente brasileira, a fruta tem como características a cor viva e o sabor ácido, num contraste com sua tenra polpa.
Os Pitanga são assim também: o baiano, de 77 anos, e a carioca, de 39, transbordam em energia, equilibrando a personalidade forte com o tratamento suave perante a vida.
Cúmplices, Antonio e Camila são mais que pai e filha, são grandes amigos.
— Ele enxerga a vida pela lente do amor. Viveu coisas muito difíceis, mas superou tudo com alto- astral e generosidade. Às vezes, é meio turrão, mas tem a grande qualidade de saber ouvir. Nunca teve um “eu sou o dono da verdade”. Ele sempre levou em consideração o que eu e meu irmão sentíamos — sublinha Camila, derretida por seu herói: — Ídolo é o que fica no lugar do inatingível. E eu o admiro como ele é, com virtudes e defeitos, de carne e osso.
Era 1986, quando o ator Antonio Luiz Sampaio e a modelo, bailarina e atriz Vera Lúcia Manhães se separaram.
De comum acordo, decidiram que os filhos — Camila e Rocco, então com 9 e 6 anos — morariam com o pai.
— Criar, todo mundo cria. Difícil é educar com alegria! Naquela época, não era comum um homem ficar com duas crianças sob sua responsabilidade. Eu plantei e reguei as sementes, vi os dois crescendo no meu seio e estabeleci uma relação de confiança e amizade com meus filhos — emociona- se ele.
Antonio Pitanga criou sozinho os dois filhos Foto: Reprodução/Álbum de família
Rocco guarda lembranças felizes da infância e da adolescência compartilhadas com o pai e a irmã.
Dos frequentes passeios à praia, a bordo de um Fiat 147, às visitas aos estúdios de TV e sets de filmagens, em que, inconscientemente e muito à vontade, deu seus primeiros passos na profissão de ator.
— Meu pai sempre foi uma figura presente, ele se desdobrou para ser “pãe”. Se ia ficar muito tempo fora, a trabalho, nos levava junto com ele. Lembro de eu e Camila estarmos no set e precisarem de uma criança para a cena. Eu fazia e adorava! Hoje, vivendo do mesmo ofício, encontro com gente que diz ter me pegado no colo… — conta o caçula da família, que, por obra do destino, viu também sua vida pessoal enveredar pelos caminhos trilhados pelo pai: — Há dois anos, a mãe das minhas filhas (Amanda, de 12 anos, e Bruna, de 11) faleceu (a produtora cultural Cláudia Cunha sofreu um infarto). Desde então, cuido das duas sozinho, sem nenhuma frescura nem medo, porque tive essa referência em casa. E ainda tenho muito mais facilidades do que ele: amigos com quem contar, internet para pesquisar… Curioso é que minha filha mais velha tem o mesmo instinto protetor e maternal que Camila desenvolveu comigo e com meu pai.
De Antonio, Camila e Rocco também herdaram o sobrenome artístico. E o repassaram a suas filhas. Muita gente não sabe, mas Pitanga era como se chamava o primeiro personagem interpretado por ele, no filme “Bahia de todos os santos” (1960).
— Um belo dia, meu pai chamou a gente e disse que tinha um presente. Aí nos entregou a certidão, sacramentando uma identidade que eu já tinha adotado para a vida profissional. Hoje sou Camila Pitanga Manhães Sampaio no RG — relembra a filha famosa, que retribuiu com uma homenagem à altura: — Tinha o sonho de batizar a minha primeira filha com o nome do meu pai. E pedi licença a meu irmão, já que a namorada dele engravidou antes de mim. Antonia (de 7 anos, fruto de seu casamento com o diretor de arte Claudio Amaral Peixoto) tem uma admiração enorme por esse avô! É sensível e amorosa, como ele. E canta, já é uma “artista no geral”, como ela mesma gosta de dizer. É cedo para afirmar, mas acho que vai seguir pelo mesmo caminho da gente.
Camila Pitanga e a filha, Antonia: a menina foi assim batizada em homenagem ao avô Foto: Reprodução de Instagram
Sempre que se senta em frente à TV para assistir a “Velho Chico”, Antonio se delicia ao identificar sinais da filha em Tereza, personagem interpretada por ela na novela das nove da Globo.
— Reconheço ali a verdadeira Pitanga. Ela é tão firme quanto! Quando a outra (Luzia, vivida por Lucy Alves e rival de Tereza) bateu nela, eu sabia que não ia ficar em vão. Vejo a novela torcendo — entrega o pai, orgulhoso.
Camila se apressa em diferenciar, no entanto, a relação com seus pais da ficção e da vida real.
Ela garante que os embates entre Tereza e Afrânio (um outro Antonio, o Fagundes) em nada lembram o que viveu em casa.
— Meu pai não tem nada de coronel, nada! Na novela, há uma dificuldade de afeto, né? Aqui é justamente o contrário: um derramamento de amor. Ele é um homem feminino, sensível demais. É daqueles que mandam mensagens de “Eu te amo” em dias comuns e emoticons de bom dia… — detalha Camila, revirando o baú de amáveis recordações: — Quando eu era pequena, ele se agachava para falar comigo olhos nos olhos. Passava minhas saias plissadas, fazia mingau, comida fresquinha… Não era bom cozinheiro, mas quem sou eu para criticar!
Antonia, Camila Pitanga e Ruth de Souza.
A falta de habilidade na cozinha é apontada pela atriz como um dos pontos em comum com seu pai, além da rouquidão na voz e da facilidade para se comunicar (“A questão do atraso para os compromissos, acho que já superei”, afirma ela, voltando um doce olhar de reprovação para Antonio).
Em Dias dos Pais, como hoje, a filha coruja vencia qualquer dificuldade para agradar ao ator.
— A gente está falando de experiências absolutamente eventuais, tá (risos)? Mas lembro que, uma vez, preparei para ele um lombo com molho de queijo. Eu colecionava essas revistas que ensinavam a costurar, bordar, cozinhar… — conta Camila, que assumiu o posto de dona de casa, ainda menina, devido à ausência da mãe, diagnosticada com um transtorno psiquiátrico: — Mas minha relação com ela sempre foi bem próxima. Hoje, nos falamos de três a quatro vezes por dia. Ela é minha filha, meu amor! Mamãe foi acolhida e respeitada pela Bené (a deputada Benedita da Silva, de 74 anos, segunda mulher de Antonio). Há uma reciprocidade, um carinho muito grande das duas partes. Assim como eu com o pai da Antonia. Mesmo separados, a gente se respeita, se ama, se cuida, se vê. Eu me dou bem com a mulher dele, ele se dá bem com o meu namorado (o ator Igor Angelkorte, de 32 anos). É uma família que só agrega e cresce.
Das datas especiais, Antonio guarda, até hoje, os desenhos feitos pela filha. E, ao eleger o maior presente dado por ela, é certeiro ao falar do que não tem preço, mas apreço:
— Ah, a Antonia! Ela tem o meu nome, é uma Pitanga! E tem um carinho enorme por esse avô aqui. Eu a levo sempre comigo, olha — diz, exibindo a foto com as três netas na tela inicial do celular.
Ao se tornar mãe, Camila diz ter revisto muito de sua história de vida. Os longos diálogos que travava com o pai, quando mais nova, hoje ela reproduz com sua cria:
— Educar é um ato de amor. Com uma sabedoria muito própria, meu pai me deixou exercitar a liberdade, com limites. Não era “tudo pode”. Ele sempre nos abraçava, dizendo que aprendia com a gente. Agora, entendo o que ele falava. Eu aprendo a ser melhor com Antonia, porque tenho que me repensar para educar.
Numa relação tão profunda entre pai e filha, não cabia reservas nem para os assuntos mais íntimos.
— Quando fiquei menstruada, foi para ele que contei primeiro. Ele me deu flores! Quando me separei, também. Ele me deu colo… — ela lembra.
Aos 56 anos de profissão, o veterano ator não vacila ao afirmar:
— Com certeza, o papel de pai foi o mais especial da minha vida. Ele me fez mais humano. Se tivesse que fazer tudo de novo, eu faria.
Madrastas muito especiais
Se a tempestuosa relação pai-e-filha da ficção não espelha a realidade afetiva entre Camila e Antonio Pitanga, os laços de amizade cultivados por Tereza e Iolanda (Christiane Torloni) se mostram similares à história da atriz com a madrasta, Benedita.
ANTONIO PITANGA, JUÍZA IVONE CAETANO, BENEDITA DA SILVA e MAURICIO CAETANO.
— Tenho uma “ótimadrasta”! — brinca Camila: — Eu tinha 16 anos, quando Bené entrou de vez nas nossas vidas. Eu a conhecia antes de ela e meu pai serem namorados, porque admirava a trajetória política, os valores dela. Quando eles decidiram ficar juntos, foi uma bênção. Ela me respeitava como mulher, teve muita delicadeza ao entrar no nosso núcleo familiar. Acabei ganhando mais dois irmãos, filhos dela. A nossa família é enorme, festiva, alegre. Os melhores natais são aqueles em que todo mundo está reunido.
Antonio diz que, a partir desse novo casamento, não só a estrutura familiar mudou, mas também o jeito de viver a vida:
— O tradicional seria trazer Benedita para morar na nossa casa, em Jacarepaguá, na Zona Oeste. Mas fizemos diferente: fomos eu, Camila e Rocco morar no morro com ela. Foi um período lindo no Chapéu Mangueira, no Leme.
Hoje, Camila e o pai permanecem na Zona Sul do Rio, em bairros distintos: ela mora no Jardim Botânico e ele, no Flamengo.
Antonio Pitanga como Firmino em ‘Barravento’, de Glauber Rocha.
Carreira
Cinema
- Bahia de Todos os Santos (1960)
- Weit ist der Weg (1960)
- A Grande Feira (1961)
- O Pagador de Promessas (1962)
- Tocaia no Asfalto (1962)
- Barravento (1962)
- Ganga Zumba (1963)
- Senhor dos Navegantes (1963)
- Sol sobre a Lama (1963)’[2]
- Os Fuzis (1964)
- Lampião, o Rei do Cangaço (1964)
- Esse Mundo É Meu (1964)
- Mitt hem är Copacabana (1965)
- Samba (1965)
- Menino de Engenho (1965)
- A Grande Cidade (1966)
- Mar Corrente (1967)
- Cangaceiros de Lampião (1967)
- A Mulher de Todos (1969)
- Tropici (1969)
- Golias Contra o Homem das Bolinhas (1969)
- Corisco, o Diabo Loiro (1969)
- Em Compasso de Espera (1969)
- Jardim de Guerra (1970)
- República da Traição (1970)
- Juliana do Amor Perdido (1970)
- Vozes do Medo (1972)
- Quando o Carnaval Chegar (1972)
- Uma Negra Chamada Tereza (1973)
- Joanna Francesa (1973)
- Mestiça, a Escrava Indomável (1973)
- Um Homem Célebre (1974)
- Os Pastores da Noite (1975)
- Crueldade Mortal (1976)
- Cordão de Ouro (1977)
- Ladrões de Cinema (1977)
- Na Boca do Mundo (1978)
- A Deusa Negra (1978)
- A Idade da Terra (1980)
- Rio Babilônia (1982)
- O Homem do Pau-brasil (1982)
- Quilombo (1984)
- O Rei do Rio (1985)
- Chico Rei (1985)
- La mansión de Araucaima (1986)
- Eternamente Pagu (1987)
- Dedé Mamata (1988)
- O Quinto Macaco (1990)
- Barrela – Escola de Crimes (1990)
- Mauá – O Imperador e o Rei (1999)
- Villa-Lobos, uma Vida de Paixão (2000)
- A Terceira Morte de Joaquim Bolívar (2000)
- Garotas do ABC (2003)
- Apolônio Brasil, o Campeão da Alegria (2003)
- Mulheres do Brasil (2006)
- Zuzu Angel (2006)
- O Homem que Desafiou o Diabo (2007)
- Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011)
- Pitanga (2017)
Antonio Pitanga com Zezé Motta no filme ‘Quilombo’, de Cacá Diegues.
Televisão
- 1968 – Ana – Antônio (Rede Record)
- 1969 – Vidas em Conflito – Robson (TV Excelsior)
- 1969 – Sangue do Meu Sangue – José do Patrocínio (TV Excelsior)
- 1971 – O Homem que Deve Morrer – Pé na Cova – TV Globo
- 1972 – Jerônimo, o Herói do Sertão – Zabumba (TV Tupi)
- 1973 – Os Ossos do Barão – Misael – TV Globo
- 1975 – Ovelha Negra – Dito Preto (TV Tupi)
- 1977 – O Astro – Epaminondas Napoleão – TV Globo
- 1977 – Espelho Mágico – Bernardes – TV Globo
- 1977 – O Espantalho – Sérvulo (Rede Record)
- 1981 – Rosa Baiana – Capitão Marcos (Rede Bandeirantes)
- 1981 – Terras do Sem-Fim – Silveira
- 1982 – Caso Verdade, Borboleta na Cabeça – Homero
- 1983 – Bandidos da Falange – Delegado Benjamin
- 1984 – Partido Alto – Jacaré
- 1984 – Meu Destino É Pecar – Dioclésio
- 1985 – Tenda dos Milagres – Exu
- 1985 – Tudo em Cima – Ignorância/Teimoso (Rede Manchete)
- 1985 – Roque Santeiro – Robusto (participação especial)
- 1986 – Dona Beija – Moisés (Rede Manchete)
- 1987 – Corpo Santo – Patrício (Rede Manchete)
- 1988 – Olho por Olho – Baba Ovo (Rede Manchete)
- 1989 – Kananga do Japão – Bira (Rede Manchete)
- 1990 – Pantanal – Túlio (Rede Manchete)
- 1990 – A História de Ana Raio e Zé Trovão – Elomar (Rede Manchete)
- 1991 – O Fantasma da Ópera – Marcelo Villar (Rede Manchete)
- 1993 – Guerra sem Fim – Delegado Azulão (Rede Manchete)
- 1994 – Incidente em Antares – Thiago
- 1995 – A Próxima Vítima – Kléber Noronha
- 1996 – O Rei do Gado – Clementino – TV Globo
- 1999 – Louca Paixão – Delegado Dantas (Rede Record)
- 2000 – O Cravo e a Rosa – Capitão João Manoel
- 2001 – O Clone – Tião – TV Globo
- 2003 – Celebridade – Comandante Aguiar (participação)
- 2003 – Agora É que São Elas – Ezequiel
- 2007 – Amazônia, de Galvez a Chico Mendes – Alcedino
- 2008 – Os Mutantes – Caminhos do Coração – Newton Carvalho (Rede Record)
- 2008 – Casos e Acasos – Dr. Carlos
- 2008 – Faça sua História – José Bonifácio
- 2010 – S.O.S. Emergência – Antônio
- 2010 – Cama de Gato – Miguel
- 2013 – Lado a Lado – Túlio [3] – TV Globo
- 2013 – Malhação – Jozino de Souza [4] – TV Globo
- 2014 – Acerto de Contas – Negativo [5]
- 2016 – Lili, a Ex – Seu Ancelmo
Teatro
- 1970 – Hair
CITAÇÃO
Antonio Pitanga – Um Brasil em preto e branco
“Nossa contribuição nessa sociedade brasileira é muito maior. Essa sociedade branca, que não reconhece a gente, bebe, come e dança a nossa cultura.”
Antonio Pitanga Publicado em Carta Capital,
Antonio Pitanga
Antonio Luiz Sampaio
(Salvador, 13 de junho de 1939)
83 Anos
FONTES
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Inscrições abertas para o 20º Concurso de Corais Infantojuvenil

Podem se inscrever escolas das redes estadual, municipal e particular até 31 de agosto
Depois de dois anos suspenso por causa da pandemia, o Concurso de Corais Infantojuvenil está de volta.
FONTE: CPP CENTRAL
A 20ª edição do evento será realizada nos dias 12, 13 e 14 de setembro, com inscrições abertas até 31 de agosto. Podem se inscrever escolas das redes estadual, municipal e particular, nas seguintes categorias: Ensino Fundamental – 1º ao 5º; Ensino Fundamental – 6º ao 9º ano; e Ensino Médio – 1º ao 3º ano.
O Concurso de Corais Infantojuvenil é uma programação cultural idealizada pela presidente do CPP, professora Loretana Paolieri Pancera.
Direcionado a estudantes do ensino fundamental ao ensino médio das redes estadual, municipal e privada de ensino, o evento é realizado anualmente, desde o ano 2000, na Sede Central.
O objetivo é despertar o interesse pela arte musical, assim como o conhecimento da música popular brasileira e do folclore nacional, no ambiente escolar.
“Após longo período de dificuldades e distanciamento por causa da Covid-19, nada como as manifestações artísticas e culturais para nos ajudar a resgatar a alegria de viver.”
– Loretana Pancera
As apresentações passam por avaliação de comissão julgadora, que seleciona, por meio de nota, a colocação dos corais participantes.
Há premiação para os dois primeiros colocados e diploma de participação para todos os grupos apresentados.
É importante mencionar que o Concurso de Corais é reconhecido como projeto artístico do estado de São Paulo, já abordado pela imprensa paulista.
Mais informações pelos telefones (11) 3340-0509 e 3340-0513, ou por e-mail:
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Dia dos Namorados

“Você não pode culpar a gravidade por se apaixonar.”
“O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá, mais se tem.”
O Dia dos Namorados é comemorado em 12 de junho no Brasil.
É muito comum nessa data a troca de cartões-postais e presentes especiais entre namorados.
Muitos casais viajam ou planejam um jantar especial, aproveitando para celebrar sua união e agradecer o companheirismo e a dedicação entre ambos durante o ano todo.
“O amor é como um sorriso que nunca termina.”
– “…Love is a never ending smile.”
– Ronnie James Dio in: “Wishing Well”, do álbum Heaven and Hell (1980)
Por que no Brasil o Dia dos Namorados é em 12 de junho?
A data surgiu no comércio paulista, quando o publicitário João Dória (pai do ex-governador de São Paulo) conheceu o Valentine’s Day (em português, Dia de São Valentim, 14 de fevereiro) em uma de suas viagens ao exterior, e trouxe a mesma ideia para o Brasil, porém adaptada.
O objetivo do publicitário era aumentar as vendas, pois em junho o desempenho do comércio era fraco.
Assim, aproveitando-se da fama de Santo Antônio, santo português conhecido como santo casamenteiro e protetor dos noivos, que é comemorado no dia 13 de junho, João Dória sugeriu que o Dia dos namorados fosse comemorado no dia anterior, 12 de junho.
“Amar é mudar a alma de casa.”
In: Mario Quintana – Poesia Completa – Sapato Florido p. 170, RJ: Editora Nova Aguilar, 2005
Em Lisboa, é tradição celebrar um casamento coletivo no dia 13 de junho, na própria Igreja onde Santo Antônio nasceu.
Para quem deseja casar, há várias simpatias para realizar no dia de Santo Antônio. Uma delas consiste em retirar o Menino Jesus que o santo carrega, prometendo devolvê-lo apenas depois que encontrar um marido.
Outra simpatia é colocar a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo, prometendo mudá-la de posição somente quando Santo Antônio arranjar um marido. Estes rituais são geralmente feitos na madrugada do dia 12 para o dia 13 de junho.
Valentine’s Day
Fora do Brasil, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, o Dia dos Namorados é celebrado em 14 de fevereiro, data conhecida como Valentine’s Day (em português, Dia de São Valentim).
O Dia de São Valentim homenageia São Valentim, bispo que ficou conhecido por celebrar casamentos em sigilo em Roma, quando o Imperador Claudio II proibiu a celebração de casamentos.
A justificativa do imperador era de que homens solteiros seriam melhores combatentes, visto que os casados já não queriam mais se arriscar.
Por defender o amor e a união dos casais perante Deus, São Valentim foi julgado e condenado à morte. A sua execução foi realizada em 14 de fevereiro de 269 d.C.

“O amor e o desejo são as asas do espírito das grandes façanhas.”
Amor
Amor (do latim amore) é uma emoção ou sentimento que leva uma pessoa a desejar o bem a outra pessoa ou a uma coisa.[1]
O uso do vocábulo, contudo, lhe empresta outros tantos significados, quer comuns, quer conforme a ótica de apreciação, tal como nas religiões, na filosofia e nas ciências humanas.
O amor possui um mecanismo biológico que é determinado pelo sistema límbico, centro das emoções, presente somente em mamíferos e talvez também nas aves — a tal ponto que Carl Sagan afirmou que o amor parece ser uma invenção dos mamíferos.[2]
- Para o psicólogo Erich Fromm, ao contrário da crença comum de que o amor é algo “fácil de ocorrer” ou espontâneo, ele deve ser aprendido; ao invés de um mero sentimento que acontece, é uma faculdade que deve ser estudada para que possa se desenvolver – pois é uma “arte”, tal como a própria vida. Ele diz:
“Se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo por que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a carpintaria, ou a arte da medicina ou da engenharia.“
FONTES

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O Diário que Emocionou o Mundo

“Do fundo do coração, sei que nunca mais terei minha inocência outra vez.”
– Anne Frank, jovem judia morta aos 15 anos num campo de concentração nazista, em um dos relatos escritos em seu diário sobre os horrores presenciados durante o holocausto; como citado em Revista Veja, 2000 Especial
Anne Frank
93 Anos
Annelies Marie Frank (12 de junho de 1929 – fevereiro de 1945) foi uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto.
Ela se tornou uma das figuras mais discutíveis do século XX após a publicação do Diário de Anne Frank (1947), que tem sido a base para várias peças de teatro e filmes ao longo dos anos.
“Os pais somente podem dar bons conselhos e indicar bons caminhos, mas a formação final do caráter de uma pessoa, está em suas próprias mãos.”
– Anne Frank
Nascida na cidade de Frankfurt am Main, na República de Weimar, ela viveu grande parte de sua vida em Amsterdã, capital dos Países Baixos, onde perdeu sua cidadania alemã.
Sua fama póstuma deu-se graças aos documentos em que relata suas experiências enquanto vivia escondida num quarto oculto, ao longo da ocupação alemã nos Países Baixos, durante a Segunda Guerra Mundial.
Em 1933, com a ascensão dos nazistas ao poder alemão, começaram a ocorrer manifestações antissemitas, o que fez com que a família de Frank, dentre muitas outras, temessem o que aconteceria com eles desde então.
No ano seguinte, mudaram- se para Amsterdã, onde viveram uma vida normal por seis anos, sobrevivendo com as empresas do pai de Anne.
Em 1940, quando os nazistas invadiram os Países Baixos, a população judaica foi perseguida e proibida de frequentar diversos locais.
Dois anos depois, a família decidiu se esconder em cômodos secretos de um edifício comercial; dividindo-o com mais quatro pessoas.
Próximo do fim da guerra, o grupo foi traído misteriosamente e transportado para campos de concentração.
Anne e sua irmã, Margot Frank, foram levadas até o de Bergen-Belsen, onde morreram, provavelmente, de tifo epidêmico, num dia desconhecido de fevereiro de 1945.
Com o fim da guerra, o único sobrevivente foi o pai de Anne, Otto Frank, que retornou a Amsterdã e descobriu que o diário da filha havia sido salvo por Miep Gies, a mesma que o ajudou escondendo a família em um edifício.
Após muito esforço, seu pai conseguiu publicar o diário, e, desde então, é um dos livros mais traduzidos do mundo.
Anne Frank com seu namorado Peter van Pels (Daan) em cena do filme ‘Diário de Anne Frank’ – Millie Perkins (Anne Frank) e Richard Beymer (Peter van Daan) na versão de 1959
Foi lançado também um filme biográfico da adolescente, sob o título The Diary of Anne Frank (1959).
Aclamado pela crítica, foi vencedor de três Oscars.
O museu, Casa de Anne Frank, foi inaugurado em 3 de maio de 1960, e em 2013 e 2014 atraiu mais de 1.2 milhões de visitantes.
Anne também foi imortalizada com uma estátua de cera no Museu Madame Tussauds, além de ter sido considerada pela revista Time um ícone do último século.
Infância
Anne Frank nasceu em Frankfurt am Main, na República de Weimar, no dia 12 de junho de 1929, a última filha do casal Otto Frank (1889-1980) e Edith Frank-Holländer (1900-45).[1]
Sua irmã mais velha era Margot Frank (1926-45).[2]
A família Frank eram judeus liberais, ou seja, não seguiam todos os costumes e tradições do judaísmo, vivendo numa comunidade de cidadãos judeus e de outras religiões.[3]
A mãe de Anne era o membro mais devoto da família, enquanto seu pai era mais interessado em atividades acadêmicas e tinha uma extensa biblioteca.[4] Ambos incentivavam suas filhas a lerem desde muito cedo.[4]
Em 13 de março de 1933, a tranquilidade da família chegou ao fim.
Foram realizadas eleições em Frankfurt para o conselho municipal, com o Partido Nazista de Adolf Hitler saindo vitorioso.[5]
Manifestações antissemitas foram iniciadas de imediato, fazendo com que os Frank começassem a temer o que aconteceria a eles caso continuassem na Alemanha.[5]
Mais tarde, naquele ano, Edith e as filhas foram para Aachen, morando com a avó materna das meninas, Rosa Holländer. Otto, entretanto, permaneceu em Frankfurt, mas depois de receber uma oferta para iniciar uma empresa em Amsterdã, ele se mudou para lá, organizando o negócio e providenciando acomodações para sua família.[6]
Os Franks fazem parte do grupo de mais de 300 mil judeus que deixaram a Alemanha entre 1933 e 1939.[7]
Otto Frank iniciou um comércio em Amsterdã, chamado Opekta Works, que vendia extrato de frutas para fazer geleia.[8]
Lá, ele também encontrou um apartamento no bairro de Rivierenbuurt, aos arredores de Amsterdã.[9] Em fevereiro de 1934, Edith e as filhas chegaram na cidade, e as duas foram matriculadas em escolas. Margot em uma pública e Anne em uma de método Montessori. [10]Margot tinha habilidades em aritmética, enquanto Anne mostrava aptidão para ler e escrever.[10] Mais tarde, sua amiga pessoal, Hanneli Goslar, lembrou que desde a infância Anne escrevia frequentemente, embora ela protegia seu trabalho e se recusava a discutir sobre o conteúdo de sua escrita.[11] As irmãs Frank tinham personalidades distintas; Margot era educada, reservada e estudiosa,[12] Anne era sincera, energética e extrovertida.[11]
Em 1938, Otto teve a oportunidade de abrir a sua segunda empresa, Pectacon, que comercializava ervas, sais e temperos usados para a produção de salsichas.[13][14] Hermann van Pels era um dos empregados do negócio. Na Alemanha, ele morava em Osnabrück, onde atuava como açougueiro, mas teve que se mudar do país junto a sua família por ser judeu.[14] Em 1939, a avó das meninas foi morar com elas, permanecendo até sua morte em janeiro de 1942.[15]
Em maio de 1940, a Alemanha Nazi invadiu os Países Baixos, e o governo da ocupação começou a perseguir a população judaica, implementando leis restritivas e discriminatórias; o registro obrigatório e a segregação aconteceram logo em seguida.[16] Apesar das irmãs Frank serem excelentes alunas e possuírem muitos amigos nas escolas que frequentavam, elas foram proibidas de estudar nelas, tendo direito apenas a instituições próprias para judeus.[15] Em abril de 1941, como medidas para evitar que suas empresas fossem confiscadas por serem propriedades de judeus, Otto Frank transferiu suas ações, e as empresas foram liquidadas, com todos os ativos transferidos para Jan Gies, esposo de Miep Gies.[17] Os lucros dos negócios continuaram com pouca mudança, e apesar de ganhar uma renda mínima, era suficiente para os sustentar.[17]
Período narrado no diário
Antes de ir para o esconderijo
No seu aniversário de treze anos, Anne ganhou um livro de seu pai, cujo mesmo ela já havia mostrado interesse enquanto passava por uma vitrine.[18] Embora fosse um livro de autógrafos, com uma estampa vermelha e branca, além de um pequeno cadeado na parte da frente,[19] Frank decidiu que iria usá-lo como diário, e começou a escrever quase que imediatamente.[20] Apesar de suas primeiras escritas se relacionar aos aspectos mundanos de sua vida, ela também discute algumas mudanças no lugar onde morava, como a ocupação alemã nos Países Baixos.[21] Em 20 de junho de 1942, ela enumera muitas das restrições que haviam sido colocadas sobre a vida da população judaica neerlandesa, e também descreve sua tristeza com a morte de sua avó no início do ano.[22] Anne sonhava em se tornar atriz,[23] ela adorava assistir filmes, mas os judeus foram proibidos de ter acesso a salas de cinema a partir do dia 8 de janeiro de 1941.[24]
Em julho de 1942, Margot Frank recebeu um aviso de convocação do Escritório Central de Emigração Judaica, ordenando que ela se mudasse imediatamente para um campo de trabalho.[25] Otto Frank disse à sua família que eles iriam se esconder em quartos acima e atrás das instalações da Opekta, na Prinsengracht, numa rua junto a um dos canais de Amsterdã, onde alguns de seus colaboradores mais confiáveis iriam ajudá-los.[26] Pouco antes de entrar no esconderijo, Anne deu a sua amiga e vizinha, Toosje Kupers, um livro, um jogo de chá, além de uma lata cheia de bolas de gude para que ela cuidasse. De acordo com o que foi noticiado pela Associated Press, Anne disse à Toosje: “Estou preocupada com minhas bolas de gude, porque eu tenho medo que [elas] possam cair em mãos erradas. Você poderia mantê-las seguras para mim por um tempo?”.[27]
Vida no Anexo Secreto
Na manhã do dia 6 de julho de 1942, a família mudou-se para o seu esconderijo, o Anexo Secreto. [28]
O apartamento da família foi deixado em um estado de desordem para criar a impressão de que eles haviam deixado o local de repente, e Otto Frank deixou um bilhete que sugeria que eles haviam ido para a Suíça.[29]
A necessidade de sigilo forçou a família deixar para trás o gato de Anne, Moortje.[29]
Como os judeus não eram autorizados a utilizar o transporte público, eles caminharam vários quilômetros de sua casa, com cada um deles vestindo diversas camadas de roupas, pois não ousavam em ser vistos com bagagens.[29]
O Achterhuis (a palavra neerlandesa que denota a parte de trás de uma casa, ou seja, Anexo Secreto) era um espaço de três andares, com entrada a partir dos escritórios da Opekta.[30]
Dois quartos pequenos, com um banheiro no primeiro andar, e acima uma grande sala, com uma outra pequena ao lado. A partir desta menor, havia uma escada que levava ao sótão. A porta do esconderijo foi coberta por uma estante para garantir que o lugar permanecesse desconhecido.[30]
Miep Gies, Victor Kugler, Johannes Kleiman e Bep Voskuijl foram os únicos empregados da Opekta que conheciam as pessoas no esconderijo.[31] O marido de Miep, Jan Gies, e o pai de Bep, Johannes Hendrik Voskuijl, eram responsáveis por ajudar na sobrevivência da família no Anexo Secreto.[32] Os ajudantes também colaboraram na ligação dos ocupantes do esconderijo com o mundo exterior, informando-os das notícias da guerra e os desenvolvimentos políticos.[32] Os ajudantes estavam conscientes de que, se capturados, eles poderiam enfrentar a pena de morte por abrigar judeus.[32]
Em 13 de julho de 1942, os Franks aceitaram abrigar com eles a família van Pels, e em novembro do mesmo ano Fritz Pfeffer, um dentista e amigo da família.[33] Anne escreveu em seu diário o prazer em ter novas pessoas para conversar, mas as tensões rapidamente se desenvolveram dentro do grupo, forçados a viver em tais condições confinados.[34] Depois de ter que passar a dividir o quarto com Pfeffer, ela o descreveu como “insuportável” e ressentia sua intrusão.[34] Ela também brigava constantemente com Auguste van Pels, a quem chamava de “tola”.[34] Anne ainda considerava Hermann van Pels e Fritz Pfeffer como “egoístas”, particularmente no que se diz respeito à quantidade de alimentos consumidos.[35] Algum tempo depois, ela iniciou um romance com Peter van Pels, de 16 anos, com quem deu seu primeiro beijo; mas sua paixão por ele começou a diminuir quando ela começou a questionar se seus sentimentos por ele eram genuínos.[36] De acordo com seu pai, Anne criou um vínculo com cada um dos ajudantes da família, ficando entusiasmada e impaciente para as visitas deles. Ele também observou que sua amizade mais próxima foi com Bep Voskuijl, pois “viviam sussurrando pelos cantos da casa”.[37]
A jovem do diário
Na sua escrita, Frank examinou as relações com os membros de sua família, além das fortes diferenças de cada uma de suas personalidades. Ela se considerava mais próxima emocionalmente de seu pai, que depois comentou: “Eu tinha um melhor relacionamento com Anne do que com Margot, que estava mais ligada a sua mãe. A razão para isso pode ter sido porque Margot raramente mostrou seus sentimentos e não precisava de tanto apoio porque não sofria mudanças de humor, como Anne”. [38] As irmãs Frank formaram um relacionamento mais próximo do que já havia existido entre elas antes de se esconderem, embora Anne as vezes expressar ciúmes de Margot, particularmente quando os membros da família a criticavam por sua falta de gentileza.[12]Quando Anne começou a amadurecer, as irmãs foram capazes de confiarem uma na outra. Em 12 de janeiro de 1944, ela escreveu no diário que “Margot estava muito mais agradável” e que estava se tornando uma “verdadeira amiga”.[39]
Frank escrevia frequentemente de sua difícil relação com sua mãe, Edith Frank, além de sua ambivalência em relação a ela. Em 7 de novembro de 1942, Anne descreveu o “desprezo” que sentia por ela, além de concluir que não a sentia como mãe.[40] Mais tarde, depois de revisar as coisas que havia escrito em seu diário, ela se envergonhou de sua atitude dura, vindo a entender que suas diferenças com sua mãe eram apenas “mal-entendidos”, culpando tanto ela como Edith por essa relação.[41] Com essa percepção, Anne começou a tratá-la com um grau de tolerância e respeito.[42]
As irmãs Frank esperavam voltar para a escola assim que elas fossem autorizadas, e continuaram com seus estudos mesmo durante a vida no esconderijo. [43] Margot fez um curso de taquigrafia por correspondência, usando o nome de Bep Voskuijl, e recebeu notas altas.[44] A maior parte do tempo de Anne foi gasto lendo e estudando, bem como escrevendo e editando seu diário regularmente. [44]Além de fornecer uma narrativa de eventos como eles ocorreram, ela escreveu sobre seus sentimentos, crenças e ambições, coisas que não poderia discutir com ninguém.[45] Quando sua confiança na escrita aumentou, durante seu amadurecimento, ela começou a escrever sobre assuntos mais abstratos, como sua crença em Deus e como ela definia a natureza humana.[45]
Em 5 de abril de 1944, em uma quarta-feira, Anne escreveu no seu diário que desejava se tornar uma jornalista:
“Eu finalmente percebi que eu devo fazer o meu trabalho escolar para deixar de ser ignorante, para conseguir uma vida, para me tornar uma jornalista, porque é isso que eu quero! Eu sei que posso escrever […] mas tenho que continuar percebendo se realmente tenho talento.
E se eu não tenho talento para escrever livros ou artigos de jornais, eu sempre posso escrever para mim mesma. Mas eu quero alcançar mais do que isso. Eu não posso imaginar vivendo como minha mãe ou a Sra. van Pels e todas as mulheres que fazem o seu trabalho e depois são esquecidas. Eu preciso ter algo além de um marido e filhos para me dedicar!
Eu quero ser útil ou trazer diversão para todas as pessoas, mesmo aqueles que eu nunca conheci. Eu quero continuar vivendo mesmo depois da minha morte! E é por isso que eu sou tão grata a Deus por ter me dado este presente que eu posso usar para me desenvolver e expressar tudo o que está dentro de mim.
Quando eu escrevo, eu posso me livrar de todos os meus cuidados, minha tristeza desaparece, meus espíritos são revividos! Mas, e isso é uma grande questão, eu nunca vou ser capaz de escrever algo grande, eu nunca vou me tornar uma jornalista ou escritora?
Prisão
Na manhã de 4 de agosto de 1944, seguindo uma dica de um informante que nunca foi identificado, o Anexo Secreto foi atacado por um grupo da polícia uniformizada alemã, liderado por SS– Oberscharführer Karl Silberbauer do serviço de inteligênciaSicherheitsdienst.[47] Os Franks, van Pelses e Pfeffer foram levados para a sede da RSHA onde foram interrogados e detidos durante a noite. [48] No dia seguinte, eles foram transferidos para uma casa de detenção, a Huis van Bewaring, uma prisão superlotada na Weteringschans.[49] Dois dias depois, eles foram transportados até o campo de concentração de Westerbork, onde já havia mais de 100 mil judeus, principalmente neerlandeses e alemães.[50] Depois de terem sido presos por viverem clandestinamente, eles eram considerados criminosos e lá foram enviados para o quartel de punição para trabalho forçado.[51]
Em seu livro descrevendo a traição sofrida em sua própria família e a transportação para Auschwitz, a autora Eva Schloss, cuja mãe Elfriede Geiringer casou-se com Otto Frank após a guerra, narra o julgamento da colaboradora nazista Miep Braams.
“Braams era a namorada de um trabalhador neerlandês chamado Jannes Haan, e ela deveria estar ajudando-o a proteger os judeus. Enquanto a guerra progredia, Haan começou a suspeitar que sua namorada era realmente uma agente dupla para os nazistas; uma enorme quantidade de famílias judaicas que lhe foram confiadas estavam desaparecendo sem deixar vestígios […] Quando ele descobriu que Braams estava o traindo com a Gestapo, ele foi executado. Mais tarde, foi estimado que Miep Braams foi a responsável por trair até duzentas famílias judaicas, incluindo a nossa [Schlosses e Franks].”
Victor Kugler e Johannes Kleiman foram presos e encarcerados no campo penal para inimigos do regime nazista, em Amersfoort.[53]Kleiman foi libertado depois de sete semanas, mas Kugler foi transferido a diversos campos de trabalho até o fim da guerra.[54]Miep Gies e Bep Voskuijl foram interrogadas e ameaçadas por policiais de segurança alemã, mas não foram detidas.[55] Elas voltaram para o Anexo Secreto no dia seguinte, onde encontraram os papéis de Anne espalhados pelo chão, e resolveram guarda-los junto a álbuns de fotografias da família, decidindo entregar tudo a Anne após o término da guerra.[56] Em 7 de agosto de 1944, Gies tentou facilitar a libertação dos prisioneiros, confrontando Silberbauer e oferecendo- lhe dinheiro, mas ele se recusou.[57]
Após o fim da guerra, Otto Frank e Kleiman enviaram uma carta para a polícia expressando o desejo de que o traidor do esconderijo fosse descoberto.[58] Pessoalmente, Otto pensava que o empregado do depósito, Willem van Maaren, teria sido o traidor; ele era um tipo de “curioso desconfiado”, além de ter feito armadilhas no armazém na intenção de descobrir algo.[59] Entretanto, nenhuma prova concreta foi descoberta a seu respeito.[60] Em 2015, um livro escrito pelo jornalista Jeroen de Bruyn e o filho mais novo de Bep Voskuijl, Joop van Wijk, alega que Nelly Voskuijl, a irmã mais nova de sua mãe, pode ter traído a família Frank.[61] Os autores encontraram evidencias que comprovavam que Nelly era uma colaboradora nazista, com Silberbauer alegando que a voz que o informou do esconderijo era de uma “jovem mulher”.[61] A mesma morreu em 2001.[61]
Deportação e morte
Em 3 de setembro de 1944, um grupo de pessoas, incluindo a família Frank, foram deportados para o que seria o último trajeto de Westerbork para o campo de concentração de Auschwitz, uma viagem que durou três dias.[62] No mesmo trem estava Bloeme Evers-Emden, uma nativa de Amsterdã que tinha amizade com Anne e Margot numa escola judia, em 1941.[63] Bloeme diz ter visto as irmãs e sua mãe regularmente em Auschwitz,[63] e revelou suas lembranças sobre a família no campo de concentração nos documentários de televisão The Last Seven Months of Anne Frank (1988) dirigido por Willy Lindwer[64] e no Anne Frank Remembered (1995) da BBC.[65]
Após a chegada da família em Auschwitz, a Schutzstaffel forçaram os homens a se separarem das mulheres e crianças, e Otto Frankfoi arrancado de sua família.[66] Aqueles que eram considerados capazes de trabalhar foram admitidos para o campo, enquanto os que eram considerados impróprios para executar os trabalhos foram imediatamente mortos. [66] Dos mil e dezenove passageiros do trem, 549 — incluindo todas as crianças menores de 15 anos — foram enviados diretamente para as câmaras de gás. [67] Anne, que já tinha completado 15 anos três meses antes, foi uma das pessoas mais jovens a ser poupada da morte.[68] Ela já estava ciente de que a maioria das pessoas que foram para a câmara estavam mortos, mas nunca teve certeza se os seus companheiros do Anexo Secreto tinham sobrevivido. [68] Ela pensou que o pai dela, na metade dos seus 50 anos, tinha sido morto após eles terem sido separados.[68]
Com as outras mulheres que não foram selecionadas para a morte, Anne foi obrigada a se despir e ser desinfetada, além de ter sua cabeça raspada, um número de identificação foi tatuado em seu braço.[67] Durante o dia, as mulheres foram usadas como mão de obra escrava e Frank foi forçada a transportar rochas e cavar rolos de grama; durante a noite, elas dormiam em barracas superlotadas.[69] Mais tarde, algumas testemunhas declararam que durante a permanência em Auschwitz, Anne se tornou uma menina triste e vivia chorando quando via crianças sendo levadas para câmaras de gás; outros relatam que mais frequentemente ela demonstrava força e coragem. [70] Sua personalidade confiante e desenvolta a permitiu que conseguisse obter pedaços de pães extras para sua mãe e irmã.[71] No campo, as doenças eram excessivas, e, em pouco tempo, a pele de Anne foi infectada pela sarna.[72] As irmãs Frank foram transferidas para uma enfermaria, que estava em um estado deplorável, com escuridão constante e infestada por ratos e camundongos.[73] A mãe delas decidiu parar de comer, passando pedaços de alimentos por um buraco que fez na parede da enfermaria.[70]
Em outubro de 1944, as Frank foram escolhidas para serem transferidas até o campo de trabalho de Liebau, na Alta Silésia.[65] Bloeme Evers-Emden também foi escolhida para estar nesse trem, mas Anne foi proibida de ir por ter contraído sarna, e sua mãe e irmã decediram ficar com ela.[65] Bloeme então partiu sem elas.[74] Em 28 de outubro do mesmo ano, as seleções de mulheres para serem transferidas até o campo de concentração de Bergen-Belsen foram iniciadas. Mais de oito mil mulheres, incluindo Anne, Margot e Auguste van Pels, foram transportadas.[75]Edith Frank não foi selecionada e ficou para trás, morrendo de fome logo em seguida.[76] Em Bergen-Belsen, Anne se encontrou brevemente com duas amigas, Hanneli Goslar e Nanette Blitz, que estavam confinadas em outra seção.[77] Goslar e Blitz sobreviveram à guerra, e mais tarde discutiram as conversas breves que teve com Anne através de uma cerca.[78] Blitz disse que Anne estava careca, magra e trêmula.[79] Goslar observou que Auguste ficou com as irmãs Frank, e que estava cuidando de Margot, que estava gravemente doente.[80] Anne disse a elas que acreditava que seus pais estavam mortos e por isso ela não queria mais viver.[81] Goslar disse que seus encontros com ela teve fim no final de janeiro ou início de fevereiro de 1945.[82]
No início de 1945 uma epidemia de tifo se espalhou por todo o campo de Bergen-Belsen, matando mais de 17000 prisioneiros.[83]Outras doenças como febre tifóide também eram exaltantes.[84] Devido a essas condições, não é possível dizer o que causou a morte de Anne. Testemunhas declaram que Margot caiu de sua cama em seu estado debilitado e foi morta pelo impacto, enquanto sua irmã faleceu alguns dias depois.[85] As datas exatas das mortes de Anne e Margot não são reconhecidas. De acordo com uma pesquisa de 2015, elas podem ter morrido no início de fevereiro de 1945.[86] Algumas testemunhas lembram que as Franks exibiram sintomas de tifo a partir de 7 de fevereiro,[87] e de acordo com autoridades de saúde, vítimas de tifo que não se tratam podem morrer até 12 dias depois do início dos sintomas.[86] Após a libertação do campo pelo Exército Britânico, o local foi queimado em um esforço para impedir a propagação das doenças;[88] as irmãs foram enterradas em uma vala comum em um local desconhecido.[89] Depois da guerra, estimou-se que apenas cinco mil dos cento e sete mil judeus deportados dos Países Baixos sobreviveram.[90]
Otto Frank sobreviveu a Auschwitz.[91] Após o fim da guerra, voltou para Amsterdã, onde foi ajudado por Jan e Miep Gies enquanto tentava localizar sua família.[92] Ele soube da morte de sua esposa, Edith, em Auschwitz, mas manteve-se esperançoso em relação a sobrevivência de suas filhas.[91] Depois de várias semanas de busca, Otto Frank descobriu que Anne e Margot também haviam morrido.[93] Ele tentou localizar o destino dos amigos de suas filhas e soube que muitos foram assassinados. Sanne Ledermann, frequentemente mencionada no diário de Anne, tinha sido morta numa câmara de gás junto a seus pais; sua irmã Barbara, uma amiga próxima de Margot, foi a única sobrevivente.[93] Outros amigos de escola das irmãs Frank também sobreviveram, bem como os parentes da família de Otto e Edith Frank, que fugiram da Alemanha durante os anos 30, indo para a Suíça, Reino Unido e os Estados Unidos.[94]
Diário de Anne Frank
Em julho de 1945, depois da Cruz Vermelha confirmar a morte das irmãs Frank, Miep Gies deu à Otto Frank o diário e um maço de notas soltas que ela havia guardado para devolvê-los a Anne.[95] Otto comentou, mais tarde, que ele não tinha percebido que Anne estava mantendo um registro tão preciso e bem escrito no tempo em que viveram escondidos. [96] Em seu livro de memórias, ele descreveu o doloroso processo de ler o diário, reconhecendo os eventos descritos pela filha e recordando que ele já tinha ouvido alguns dos episódios mais divertidos lidos em voz alta por ela.[96] Ele também diz ter visto o lado mais privado de Anne em seções do diário que ela não falava para ninguém. “Para mim, foi uma revelação. Eu não tinha ideia da profundidade de seus pensamentos e sentimentos. Ela guardou tudo para si”, completou Frank.[96] Movido pelo desejo que sua filha tinha em ser uma autora, ele começou a considerar em publicá-lo.[97]
O diário de Anne começou como uma expressão particular de seus pensamentos; ela escreveu diversas vezes que ela nunca iria permitir que alguém tivesse acesso a ele.[98] Ela candidamente descreveu toda a sua vida, sua família, seus companheiros, sua situação durante a Segunda Guerra Mundial, além de sua ambição em escrever uma ficção para ser publicada.[98] Em março de 1944, ela ouviu em uma transmissão de rádio por Gerrit Bolkestein — membro do governo neerlandês no exílio —, onde ele diz que quando a guerra terminasse, ele iria recolher provas escritas do povo neerlandês em relação à opressão que haviam sofrido durante a ocupação nazista e iria publicá-los. [99] Frank então decidiu submeter seu trabalho quando chegasse este momento, começando a editar a sua escrita, removendo algumas seções e reescrevendo outras, visando pelo momento de publicação.[99] Ela também criou pseudônimos para os membros do Anexo Secreto e seus ajudantes. A família van Pels se tornaram Hermann, Petronella e Peter van Daan, enquanto Fritz Pfeffer se tornou Albert Dussell.[100] Em sua versão editada, ela dirige cada uma das partes de seu diário à “Kitty”, uma personagem fictícia da série de livros Joop ter Heul, escritos por Cissy van Marxveldt, que adorava ler.[101] Assim, Otto usou seu diário original, conhecido como “versão A”, e sua versão editada, conhecida como “versão B”, para produzir uma primeira versão para a publicação.[101] Além disso, ele removeu certas passagens, notadamente aquelas em que Anne é extremamente crítica em relação ao comportamento de seus pais (especialmente sua mãe), além das seções que discutiam a crescente sexualidade de sua filha.[102] Embora tivesse restaurado a verdadeira identidade de sua própria família, ele decidiu manter os pseudônimos dos outros companheiros de esconderijo.[102]
Otto Frank deu o diário para a historiadora Annie Romein-Verschoor, que tentou, sem sucesso, publicá-lo.[103] Ela decidiu entregá-lo a seu marido, Jan Romein, que escreveu um artigo sobre ele, intitulado “Kinderstem”, publicado pelo jornal de Amsterdã, Het Parool, em 3 de abril de 1946.[104] No mesmo, ele escreve que o diário “gaguejou em uma voz de criança, incorporando toda a hediondez do fascismo, mais do que todas as provas juntas de Nuremberg”.[105] Seu artigo atraiu atenção de diversas editoras, e o diário foi publicado nos Países Baixos como Het Achterhuis em 1947,[106] seguido por mais cinco edições em 1950.[107] A primeira vez que foi publicado na Alemanha e na França foi em 1950,[108] e depois de ser rejeitado por diversas editoras, foi publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos em 1952.[108] O diário foi bem-sucedido nos países em que foi lançado, exceto no Reino Unido, onde falhou em atrair atenção do público.[108] Seu sucesso mais notável foi no Japão, onde foi recebido com aclamação da crítica e vendas estimadas em 100 mil unidades na primeira edição.[106] No país, Anne Frank é identificada como uma figura que representa a destruição da juventude durante a guerra.[106]
Um roteiro adaptado por Frances Goodrich e Albert Hackett do diário foi lançado como uma peça teatral em Nova Iorque, no dia 5 de outubro de 1955, cuja mesma venceu ao Prêmio Pulitzer.[109] Em 1959, um filme baseado no livro, The Diary of Anne Frank, foi recebido com aclamação da crítica e sucesso comercial, sendo vencedor de três Oscars.[110] A biógrafa Melissa Müller escreveu que a dramatização “contribuiu muito para a romantização e universalização da história de Anne”.[111] Ao longo dos anos, a popularidade do diário cresceu, e em muitas escolas, particularmente nos Estados Unidos, foi incluído como parte da grade escolar a introdução da história de Frank para as novas gerações de leitores.[112] Em 1986, o Instituto Neerlandês de Documentação de Guerra publicou a “edição crítica” do diário. Nela, inclui comparações de todas as versões conhecidas, ambas editadas e inéditas. Além disso, inclui uma discussão afirmando a autenticação do diário, bem como informações históricas adicionais sobre a família e o próprio livro. [113]
Cornelis Suijk — ex-diretor do Instituto Anne Frank e presidente do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos — anunciou em 1999 que ele possuía cinco páginas que haviam sido removidas por Otto Frank antes da publicação do diário. Suijk alegou que Frank deu essas páginas para ele pouco antes de sua morte, em 1980. Nas folhas arrancadas do diário continham observações críticas de Anne sobre o casamento forçado de seus pais e a falta de afeto que sentia por sua mãe.[114] Houve controvérsia quando Suijk reivindicou direitos de publicação sobre as cinco páginas, tendo intenção de vendê-las para arrecadar dinheiro para sua fundação. O Instituto Neerlandês de Documentação de Guerra, o proprietário formal do manuscrito, exigiu que as páginas fossem entregues. Em 2000, o Ministério da Educação, Cultura e Ciência dos Países Baixos concordou em doar cerca de 300 mil dólares para a fundação de Suijk, e as páginas foram devolvidas em 2001. Desde então, elas foram incluídas em suas novas edições.[115]
Recepção
Desde o seu lançamento, o diário tem sido elogiado por seus méritos literários. Comentando sobre o estilo da escrita de Anne Frank, o dramaturgo Meyer Levin a elogiou por “sustentar a tensão de um romance bem construído”,[116] além de se mostrar impressionado com a qualidade de seu trabalho quando colaborou com Otto Frank em uma dramatização do diário após sua publicação.[116] Levin confessa que ficou obcecado pela história de Anne, explicando isso em sua autobiografia The Obsession.[117] O poeta John Berryman chamou o livro de “uma representação única, não apenas da adolescência, mas da conversão de uma criança em uma pessoa que se descreve de forma precisa, confiante e com uma impressionante honestidade”. [118] Após o lançamento da primeira edição americana do diário, Eleanor Roosevelt o descreveu como “um dos comentários mais sábios e mais comoventes sobre a guerra e seu impacto sobre os seres humanos que já havia lido”.[119] O então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedydiscursou sobre Anne Frank em 1961, dizendo: “De todas as multidões que, ao longo da história, têm falado pela dignidade humana em tempos de grande sofrimento e perda, nenhuma voz é mais convincente do que a de Anne [Frank]”.[120] No mesmo ano, o autor Ilya Ehrenburg a definiu como “uma voz que fala por seis milhões [de pessoas]. Não é uma voz de um sábio ou de um poeta, mas de uma menina comum”.[121]
Como a estatura de Anne Frank, tanto como escritora e humanista tem crescido, ela tem sido discutida especificamente como um símbolo do Holocausto e, mais amplamente, como uma representante da perseguição.[122] Em 1994, quando recebeu o prêmio Elie Wiesel Humanitarian Award, a política Hillary Clinton falou ter lido o diário de Frank e comentou sobre o seu poder de “despertar-nos para a loucura da indiferença e do terrível pedágio que afeta os jovens”, relacionando-o com os eventos até então atuais na Somália, Ruanda e Saravejo.[123] No mesmo ano, após receber um prêmio por seus trabalhos humanitários no Instituto Anne Frank, Nelson Mandela falou para uma multidão em Joanesburgo que ele tinha lido o diário de Anne enquanto estava na prisão, e que “tirou muito incentivo através dele”.[124] Ele também comparou a luta contra o nazismo com a sua luta contra o apartheid, traçando um paralelo entre as duas filosofias. “Porque essas crenças são patentemente falsas, e porque elas foram, e sempre serão, desafiadas pelos gostos de [Anne Frank]. Estarão condenadas ao fracasso”, completou Mandela.[124] De acordo com Václav Havel, “o legado de Anne está muito vivo e ele pode nos atender plenamente em relação às mudanças políticas e sociais que ocorrem”.[125]Primo Levi sugeriu que Anne Frank é frequentemente identificada como a única representante dos milhões de pessoas que sofreram e morreram como ela, porque “uma única Anne nos move mais do que outras inumerosas pessoas que sofreram como ela, cujos rostos permaneceram nas sombras”.[125] Em sua mensagem de fechamento da biografia de Anne, escrita por Melissa Müller, Miep Gies expressou um pensamento semelhante ao de Levi, onde disse: “Anne simboliza os seis milhões de vítimas do Holocausto […] Anne não pode e não deve representar as muitas pessoas a quem os nazistas roubaram as vidas, mas seu destino nos ajuda a compreender a imensa perda que o mundo sofreu pelo Holocausto”.[126]
Otto Frank passou o resto de sua vida como o guardião do legado de sua filha, dizendo: “É um papel estranho. Num relacionamento familiar comum, é o filho do pai famoso que tem a honra e o fardo de continuar sua tarefa. Em meu caso, o papel é inverso”.[127] Ele lembrou em como seu editor explicou o motivo do diário ter sido amplamente lido; “Ele disse que é um livro que engloba tantas áreas da vida que cada leitor pode encontrar algo que o move pessoalmente”, concluiu.[127]Simon Wiesenthal disse que o diário havia levantado uma consciência mais generalizada do Holocausto do que tinha sido alcançada pelos Julgamentos de Nuremberg, porque “as pessoas se identificaram com esta criança. Esse foi o impacto do Holocausto, era apenas uma família como a minha, como a sua”. [128] Em junho de 1999, a revista Time publicou uma edição especial intitulada “Time 100: The Most Important People of the Century“.[129] Anne Frank foi incluída na seção de “Heróis e Ícones”, e o autor, Roger Rosenblatt, descreveu seu legado com o comentário: “As paixões do livro sugerem que todo mundo é dono de uma Anne Frank, que cresceu acima do Holocausto, do Judaísmo, da adolescência e até mesmo da bondade, tornando-se uma figura totêmica no mundo moderno. Ela tinha uma mente individual assolada pela máquina de destruição, insistindo no direito de viver, perguntas e esperança de um futuro nos seres humanos”.[130] Ele também observa que, apesar de sua coragem e pragmatismo serem admiradas, sua capacidade de analisar a si mesma e a qualidade de sua escrita são os principais componentes de seu apelo: “A razão para sua imortalidade foi basicamente literária. Ela era extraordinariamente uma boa escritora, para qualquer idade, bem como a qualidade de seu trabalho que se parecia um resultado direto de uma disposição brutalmente honesta”.[130]
Contestações de autenticidade
Após o diário se tornar amplamente conhecido, no final de 1950, várias acusações que questionam a sua veracidade e/ou o seu conteúdo foram aparecendo, com as primeiras críticas sendo publicadas na Suécia e Noruega.[131]
Em 1957, Fria ord, uma revista sueca da organização neofascista, National League of Sweden, publicou um artigo do autor e crítico dinamarquês Harald Nielsen, que já havia escrito publicações antissemitas sobre o autor de origem judaica Georg Brandes.[132]
Entre outras coisas, o artigo afirmava que o diário havia sido escrito pelo dramaturgo Meyer Levin.[133] No ano seguinte, durante um evento de divulgação do Diário de Anne Frank, em Viena, Simon Wiesenthal foi contestado por um grupo de manifestantes que afirmavam que Anne nunca existiu, além de o desafiar a provar sua existência encontrando o homem que a prendeu.[134] Wiesenthal, de fato, começou a procurar pelo paradeiro de Karl Silberbauer, encontrando-o apenas em 1963. Quando entrevistado, Silberbauer admitiu seu papel na prisão dos Franks, identificando Anne em uma fotografia como uma das pessoas que ele havia prendido.[134] Silberbauer também forneceu um relato completo sobre o evento, lembrando que havia esvaziado uma pasta cheia de papéis e os espalhado pelo chão. Sua declaração corroborou a versão dos acontecimentos que haviam sido anteriormente apresentados por testemunhas como Otto Frank.[134]
Entretanto, os opositores do diário continuaram a expressar suas opiniões de que não havia sido escrito por uma criança, e que era tudo uma farsa, acusando Otto de fraude.[135] Em 1959, ele tomou medidas legais em Lübeck contra Lothar Stielau, um professor e ex-membro da Juventude Hitlerista, que publicou em um jornal escolar uma matéria em que descreve o diário como “uma falsificação”.[133] A denúncia foi estendida para incluir Heinrich Buddegerg, que escreveu uma carta de apoio à Stielau, que foi publicado também por um jornal local de Lübeck.[133] O tribunal examinou o diário em 1960 e autenticou o manuscrito como correspondentes às letras conhecidas por terem sido escritas por Anne Frank. Assim, declararam que o diário era verdadeiro.[133]Stielau desmentiu sua declaração anterior, e Otto Frank decidiu não levar o caso adiante.[133] Em 1976, ele voltou a tomar medidas legais, desta vez contra Heinz Roth, que espalhou panfletos em Frankfurt am Main — cidade natal de Anne — afirmando que o diário era falso. [133] O juiz determinou que se Roth voltasse a espalhar quaisquer outras declarações do tipo, ele estaria sujeito a uma multa de 500 mil marcos alemães, além de uma pena de prisão de seis meses.[133] Roth recorreu contra a decisão do tribunal, mas morreu um ano depois.[133] No mesmo ano, Otto Frank moveu uma ação contra Ernst Römer, que distribuiu um panfleto que chamava o diário de “best-seller mentiroso”.[133] Quando um homem chamado Edgar Geiss distribuiu o mesmo panfleto no tribunal, também foi processado. Römer foi multado em 1.500 marcos alemães e Geiss a seis meses de prisão.[133][136]
Em 1986, foi encomendado um estudo forense do diário, através do Ministério da Justiça dos Países Baixos. Eles examinaram a caligrafia contra exemplos conhecidos e descobriu que elas correspondiam.[137] Eles determinaram que o papel, a cola e a tinta usada no diário já estavam disponíveis durante o tempo de sua escrita. Assim, o livro foi considerado autêntico, e seus resultados foram publicados no que se tornou conhecida como a “Edição Crítica” do diário.[137] Mesmo assim, em 1991, os negadores do Holocausto, Siegfried Verbeke e Robert Faurisson produziram um livro intitulado The Diary of Anne Frank: A Critical Approach, em que revivia as alegações de que Otto Frank havia escrito o diário.[138] Supostas novas provas, bem como várias contradições no diário, incluindo o estilo de prosa e sua escrita manual não eram os de um adolescente, além de concluir que se esconder no Anexo Secreto teria sido impossível. [138] Em dezembro de 1993, a Casa de Anne Frank, em Amsterdã, entrou com uma ação civil para proibir a distribuição do livro. Cinco anos depois, o Tribunal Distrital de Amsterdã decidiu em favor dos reclamantes, proibindo assim qualquer nova negação de autenticidade do diário, impondo uma multa de 25 mil florins neerlandeses por cada violação.[139]
Controvérsias sobre a versão integral
Uma edição integral do trabalho de Anne Frank foi publicado em 1995.[140]
Nesta versão incluía uma descrição da própria Anne com a exploração de seus órgãos genitais, além da sua perplexidade em relação ao sexo e o parto, cujas partes haviam sido anteriormente removidas por Otto Frank.[141]
Quando uma mulher chamada Gail Horalek, de Northville, Michigan, ficou sabendo que a classe da sétima série de sua filha estava usando esta edição do diário, ela apresentou uma queixa ao distrito escolar pedindo que uma versão editada fosse imediatamente utilizada.[142] Horalek, que descreveu as partes do livro como “pornográficas”, disse que a escola deveria ter obtido a aprovação prévia dos pais antes de estudar tal versão do livro. [142] Em 2010, os professores de uma escola em Culpeper County, na Virgínia, pararam de estudar a versão integral do livro após queixas semelhantes serem apresentadas.[143] Tais atitudes foram criticadas por Emer O’Toole do The Guardian, observando que “nós [ainda] vivemos em uma sociedade em que as jovens são ensinadas a terem vergonha das mudanças que seus corpos sofrem na puberdade, forçando-as a serem secretas e até mesmo fingir que ela não existe”.[141]
Legado
Desde a publicação do diário, Anne Frank tem sido apontada como um símbolo universal contra a intolerância, além de ter dado um “rosto” aos milhões de pessoas que morreram no Holocausto. [144][145] Em 3 de maio de 1957, um grupo de cidadãos, incluindo Otto Frank, estabeleceram a Instituição Anne Frank, em um esforço para resgatar o edifício Prinsengracht da demolição e torná-lo acessível ao público.[146] A Casa de Anne Frank foi aberta em 3 de maio de 1960; ela é composta pelo armazém e os escritórios da Opekta e o Anexo Secreto, todos sem mobília para que os visitantes pudessem andar pelos cômodos.[147] Algumas relíquias pessoais dos antigos ocupantes permaneceram, como fotografias de estrelas de cinema colados por Anne Frank em uma parede, uma outra parede em que Otto marcava o crescimento de suas filhas, além de um mapa em outro lado, onde gravou o avanço das Forças Aliadas da Segunda Guerra Mundial, todos agora protegidos por folhas de acrílico.[148] A partir do cômodo pequeno, que foi o quarto de Peter van Pels, uma passarela liga o edifício aos de seus vizinhos, que foram comprados pela Instituição.[148] Estes outros edifícios são usados para abrigar o diário, bem com exposições rotativas sobre os aspectos crônicos do Holocausto e exemplos da intolerância racial no mundo.[149] Em 2014, se tornou uma das principais atrações turísticas de Amsterdã, recebendo mais de 1 milhão visitantes.[150] Desde então, o museu oferece exposições que já viajaram para 32 países na Europa, Ásia, América do Sul e do Norte.[151]
Em 1963, Otto Frank e sua segunda esposa, Elfriede Geiringer, configuraram a Fundação Anne Frank como uma instituição de caridade, com sede em Basileia, na Suíça. A Instituição arrecada dinheiro para doar à causas que “consideram dignas”.[152] Após a sua morte, Otto quis que os direitos autorais do diário fossem inteiramente entregues a instituição, pedindo que em cada ano, apenas 80 mil francos suíços fossem distribuídos entre seus herdeiros.[153] A Fundação também fornece financiamentos para o tratamento médico dos Justos entre as Nações, numa base anual.[154] Além disso, ela tem como objetivo educar os jovens contra o racismo, e emprestou alguns dos papéis de Anne Frank para o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, usados em uma exposição de 2003. [155] Seu arrecadamento anual também traçou esforços para uma contribuição à nível global, apoiando projetos na Alemanha, Israel, Índia, Suíça e Reino Unido.[154] Em 1997, o Centro de Educação Anne Frank foi inaugurado na cidade de Frankfurt am Main, onde a família Frank viveu até 1934.[156] O Centro é apontado como “um lugar onde jovens e adultos podem aprender sobre a história Nazista e discutir sua relevância até os dias de hoje”.[156]
O apartamento em Marwedeplein, onde a família Frank viveu de 1933 até 1942, permaneceu como local privado até a década de 2000.
Depois de ter sido o foco de um documentário de televisão, o edifício foi visto em um estado grave de degradação, sendo comprado por uma corporação de habitação neerlandesa.[157]
Com a ajuda de fotografias tiradas pela família, bem como as descrições em folhas escritas por Anne Frank, o apartamento foi restaurado a sua aparência dos anos 30.[157]
Teresien da Silva, membro da Casa de Anne Frank e prima da própria, junto com outro primo, Buddy Elias, contribuíram para o projeto de restauração, sendo inaugurado em 2005.[157]
Em junho de 2007, Buddy doou cerca de 25 mil documentos de sua família para o museu.[158]
Entre eles, fotografias da família de Frank tiradas na Alemanha e nos Países Baixos, bem como a carta que Otto Frank enviou para sua mãe em 1945, informando-a que sua esposa Edith Frank e as filhas haviam sido mortas em campos de concentração nazista.[158]
Em novembro de 2007, a árvore de Anne Frank — que depois foi infectada por um fungo que afeta todo o seu tronco — estava programada para ser cortada, evitando que ela caísse sobre os edifícios próximos. [159]
A árvore mostrou ser importante para Anne, chegando a ser mencionada em seu diário, onde dizia que “enquanto ela existir, eu não posso ser infeliz”.[160]
O economista Arnold Heertje foi contrário a decisão de derrubá-la, argumentando que ela “não era uma árvore qualquer”, e sim “a árvore de Anne Frank, que está ligada à perseguição dos judeus”.[161]
Um grupo de conservacionistas chegou a começar um processo civil para proibir a derrubada do castanheiro-da-índia, que recebeu a atenção da mídia internacional.[162]Um tribunal neerlandês ordenou que as autoridades da cidade e os conservacionistas chegassem a uma solução a respeito.[163]As duas partes fizeram uma construção de aço, que iria prolongar a vida da árvore por mais de 15 anos.[161]
Entretanto, três anos depois, em 23 de agosto de 2010, os ventos fortes derrubaram-a.[164]
Onze mudas da árvore foram distribuídas em museus, escolas, parques e centros para que plantassem e se tornasse uma lembrança do Holocausto, projeto liderado pelo Centro de Anne Frank nos Estados Unidos.[165] Entre os diversos locais em que foi plantado se destaca o Liberty Park, em Manhattan, que homenageia vítimas dos Ataques de 11 de setembro. [166]
Ao longo dos anos, vários filmes sobre Anne Frank foram aparecendo.
Anne Frank com seu namorado Peter van Pels (Daan) em cena do filme ‘Diário de Anne Frank’ – George Stevens Productions.
Sua vida e a sua escrita inspiraram um grupo diversificado de artistas e comentaristas sociais a fazerem referência a ela na literatura, música popular, televisão e outros meios de comunicação.
Entre os mais conhecidos, está o bailado The Anne Frank Ballet de Adam Darius,[167] e o coral Annelies, estreado em 2005.[168]
O único filme em que a adolescente realmente aparece é de 1941, um filme mudo gravado por seu vizinho recém-casado.[169]
Nele, Anne é vista inclinando-se para fora de uma janela do segundo andar em uma tentativa de visualizar melhor o noivo e a noiva.
O casal, que sobreviveu à guerra, deu o filme de presente para a Casa de Anne Frank.[169]
Em 1995, um asteroide foi nomeado 5535 Annefrank em sua homenagem, depois de ter sido descoberto em 1942.[172]
Em 1999, a revista Time nomeou Anne Frank como um dos heróis e ícones do século XX, destacando que “com o diário mantido em um sótão secreto, ela enfrentou os nazistas e emprestou a voz lancinante para a luta pela dignidade humana”.[130]
O romantista Philip Roth a descreve como “a filhinha perdida” de Franz Kafka.[170]
Uma estátua de cera dela foi lançada no Museu Madame Tussauds, em 2012.[171]
Anne Frank – Avaliação e formação do caráter
“Aprendi uma coisa: só se conhece realmente uma pessoa depois de uma discussão. Só nessa altura se pode avaliar o seu verdadeiro caráter.”
Anne Frank
Annelies Marie Frank
(12 de junho de 1929 – fevereiro de 1945)
93 Anos
FONTES
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CPP convida o pré-candidato Fernando Haddad para entrevista

Convite foi entregue em mãos ao postulante ao Governo de SP pelo PT
O professor Azuaite Martins de França, terceiro vice-presidente do Centro do Professorado Paulista, entregou em mãos, na Universidade Federal de São Carlos, nesta quinta-feira (9), ofício convidando o pré-candidato a governador do Estado de São Paulo, Fernando Haddad (PT), a participar do ciclo de entrevistas que a entidade irá realizar.
Fernando Haddad, pré-candidato do PT e o professor Azuaite Martins de França, do CPP.
O objetivo é debater questões relativas à educação.
Em pauta estarão os compromissos públicos que cada pré-candidato tem com a educação, sobretudo com os professores, profissionais da Educação e estudantes, que sofrem com o abandono histórico da área em sucessivos governos do estado, incluindo João Doria, que escolheu os professores ativos e aposentados como seus inimigos número um.
A entidade considera fundamental conhecer as propostas dos pré-candidatos para o desenvolvimento da educação no estado e discutir temas como a valorização dos professores, destinação de verbas para as escolas e políticas públicas voltadas à garantia da qualidade do ensino.
O convite já foi feito ao governador do estado e candidato à reeleição pelo PSDB, Rodrigo Garcia. Saiba mais.
PARTICIPE! MANDE SUA PERGUNTA
Vocês, professores e profissionais da Educação, podem participar da série de entrevistas. Basta enviar e-mail para portal@cpp.org.br com sugestões de questionamentos para os postulantes ao Governo do Estado de São Paulo.
O CPP entrevistará os pré-candidatos mais bem colocados em pesquisas de intenção de voto.
São eles, por ordem decrescente: Fernando Haddad (PT), Márcio França (PSB), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Rodrigo Garcia – atual governador (PSDB).
O PRÓXIMO GOVERNADOR SABE QUANTO VOCÊ GANHA?
O Centro do Professorado Paulista solicita aos associados que encaminhem cópia do demonstrativo de pagamento referente ao mês de junho deste ano para que a entidade consiga entregar aos candidatos ao Governo do Estado de São Paulo.
A ação tem como objetivo arrecadar mil cópias de holerites de professores da ativa e aposentados, que serão usadas na elaboração de um livro.
Saiba mais sobre a iniciativa.
FONTE: CPP CENTRAL
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O Apresentador dos Sete Mares

“Não há necessidade de civilizar a ciência; precisamos usar a ciência para civilizar a civilização.”
– Jacques Cousteau
Jacques Cousteau
112 Anos
Jacques-Yves Cousteau (Saint André de Cubzac, 11 de junho de 1910 — Paris, 25 de junho de 1997) foi um oficial da marinha francesa, documentarista, cineasta, oceanógrafo e inventor mundialmente conhecido por suas viagens de pesquisa, a bordo do Calypso.[1]
“Provavelmente fez-se mais danos à Terra no século XX do que em toda a história anterior.”
– Jacques Cousteau
Cousteau foi um dos inventores, juntamente com Émile Gagnan, do aqualung, o equipamento de mergulho autônomo que substituiu os pesados escafandros, e também participou como piloto de testes da criação de aparelhos de ultra-som para levantamentos geológicos do relevo submarino e de equipamentos fotocinematográficos para trabalhos em grandes profundidades.
A série de TV ‘A Odisseia’ ajudou Cousteau financeiramente para que ele pudesse continuar a pesquisa a bordo do Calypso.
Cousteau conquistou a Palma de Ouro de 1956, com o filme O mundo silencioso, rodado no Mar Mediterrâneo e Vermelho.
Mas o próprio Cousteau confessou que, em seus primeiros filmes, não tinha nenhum tipo de preocupação ecológica.
“Muitas pessoas atacam o mar, eu faço amor com ele.”
– Jacques Cousteau
No total, foram quatro longas-metragens e setenta documentários para a televisão.
Em 1965, Cousteau criou uma casa submarina onde seis pessoas viveram por um mês, a cem metros de profundidade.
Cousteau construiu colônias no fundo do mar na tentativa de determinar se os humanos poderiam viver sob a superfície do oceano, desenvolvido Jacques Cousteau uma colônia subaquática que ele batizou Conshelf – um acrônimo para “plataforma continental”
Em 1990, o músico francês Jean Michel Jarre lançou um álbum em homenagem a seu 80º aniversário, com o título Waiting For Cousteau.

Juventude
Cousteau nasceu em 11 de Junho de 1910 em Saint-André-de-Cubzac, filho de Daniel e Élisabeth Cousteau e irmão de Pierre-Antoine. Cousteau completou os estudos no prestigiado Collége Stanislas em Paris.
Em 1930, ingressou na escola naval e graduou-se como oficial de artilharia. Após um acidente de carro que acabou com a sua carreira na aviação naval, Cousteau voltou seu interesse para o mar.
“O mar é o esgoto universal.”
– Jacques Cousteau, declarando que o mar é “onde todos tipos de poluições se encerram”, no “US House Committee on Science and Astronautics”, em 28 de janeiro de 1971
Fotomontagem com Jacques Cousteau, filhos e netos.
Em Toulon, onde serviu no Condorcet, Cousteau executou sua primeira experiência científica debaixo d’água, graças a seu amigo Philippe Tailliez que, em 1936, enviou-lhe alguns óculos de proteção subaquáticos Fernez, predecessores da moderna máscara de mergulho.
Cousteau também fez parte do serviço de informações da Marinha Francesa, e foi enviado em missões para Shanghai e Japão (1935–1938) e para a União Soviética (1939).
Em 12 de julho de 1937 casou com Simone Melchior, com quem teve dois filhos, Jean-Michel (nascido em 1938) e Philippe (nascido em 1940).
Seus filhos fizeram parte de aventuras a bordo do Calypso.
Teve ainda uma filha Diane Cousteau (nascida em 1981) e um filho Pierre-Yves Cousteau (nascido em 1982), ambos nascidos no segundo casamento de Cousteau.
Um ano depois da morte de sua esposa Simone por câncer, casou-se com Francine Triplet.
Fotomontagem – À esquerda, Jean-Michel, Fabien e Celine Cousteau. À direita, Jacques Cousteau e a segunda esposa, Francine.
Início dos anos 1940: Inovação do mergulho moderno
Os anos da Segunda Guerra Mundial foram decisivos para a história do mergulho.
Depois do Armistício de 1940, a família de Simone e de Jacques refugiaram-se em Megève, onde se tornaram amigos da família Ichac que também moraram lá. Jacques-Yves Cousteau e Marcel Ichac compartilhavam o mesmo desejo de mostrar ao público geral lugares desconhecidos e inacessíveis – no caso de Cousteau, o mundo submarino e, no caso de Ichac, as montanhas altas.
Jacques Cousteau com seu filho, Jean Michel.
Os dois vizinhos fizeram o primeiro ex aequo do Congresso de Filmes Documentários, em 1943, para o primeiro filme subaquático francês Par dix-huit mètres de fond (18 metros de profundidade), feito sem equipamento de respiração no ano anterior na ilha Embiez com Philippe Tailliez e Frédéric Dumas, sem esquecer papel primordial desempenhado, como criador da câmera de profundidade pressurizada, pelo engenheiro mecânico Léon Vèche.
Em 1943, fez um filme Épaves (Naufrágios); para essa ocasião, usou dois dos primeiros protótipos do Aqualung.
O protótipo foi feito em Boulogne- Billancourt pela Companhia Air Liquid seguindo as instruções de Gagnan e de Cousteau.
Quando faziam Épaves, Cousteau não conseguiu achar rolos de filme em branco necessários, porém havia comprado centenas de rolos de câmera da mesma largura, planejados para câmeras infantis, e uniu todas formando assim um rolo de filme longo.
Mantendo vínculos com falantes de língua inglesa (passou parte de sua infância nos Estados Unidos e casualmente falava inglês) e com soldados franceses na África do Norte (sob comando do Almirante Lemonnier), Cousteau ajudou a Marinha Francesa para juntar-se novamente aos Aliados, montando uma operação de comando contra o Serviço de Espionagem Italiano na França e recebendo várias condecorações por seus atos.
Naquela época manteve distância de seu irmão Pierre-Antoine Cousteau, um escritor anti-semita o qual escreveu o jornal colaboracionista Je suis partout (Eu estou em todo lugar) e recebeu sentença de morte em 1946.
Entretanto, este foi depois modificado para uma sentença de vida da qual foi liberto em 1954.
Durante os anos 1940, Cousteau é creditado pelo design do “improvável” Aqualung que deu origem à tecnologia do circuito aberto de mergulho autônomo usado atualmente, isto é, regulador de demanda e cilindro de ar comprimido.
De acordo com o seu primeiro livro Mundo do silêncio: uma história de descobertas e aventuras submarinas (1953), Cousteau começou com óculos de proteção Fernez em 1936, e em 1939 usou o aparelho autônomo de respiração subaquático, inventado em 1926 pelo Comandante Yves le Prieur.
Cousteau não estava satisfeito com o período de tempo que passava debaixo d’água com o aparelho de Le Prieur, então resolveu improvisar, adicionando um regulador de demanda, inventado em 1942 por Émile Gagnan.
Em 1943, Cousteau experimentou o primeiro protótipo do Aqualung que finalmente fez estender o tempo de exploração submarina possível.
Jacques Cousteau e o Calypso, navio de pesquisas hidrográficas.
Final dos anos de 1940: GERS e Élie Monnier
Em 1946, Cousteau e Talliez mostraram o filme Épaves ao Almirante Lemonnier, e o almirante responsabilizou-se por montar o Groupement de Recherches Sous-Marines (GRS ou, em português, Grupo de Pesquisas Submarinas) da Marinha Francesa em Toulon.
Um pouco depois este se tornou Groupemente d’Études et de Recherches Sous-Marines (GERS, ou, em português, Grupo de Estudos e Pesquisas Submarinas), em seguida, Commandement des Interventions Sous la Mer (COMISMER, ou, em português, Comando de Intervenções Subaquáticas) e, finalmente, o CEPHISMER. Em 1947, o suboficial principal Maurice Fargues tornou-se o primeiro mergulhador a morrer usando um aqualung enquanto tentava estabelecer um novo recorde de profundidade com a GERS em Toulon.
Em 1948, envolvido em missões de desativação de minas, explorações submarinhas e testes técnicos e físicos, Cousteau empreendeu a primeira campanha no Mediterrâneo a bordo da corveta Élie Monnier com Philippe Talliez, Frédéric Dumas e Jean Alinat, além do escritor Marcel Ichac. A pequena equipe também empreendeu no Naufrágio Romano de Mahdia (Tunísia).
Esta foi a primeira operação arqueológica que utilizou mergulho autônomo, assim abrindo caminho para o mergulho científico arqueológico.
Cousteau e o Élie Monnier participaram no resgate da esfera de mergulho de navio do professor Jacques Piccard, o FRNS-2, durante a expedição de 1949 para Dakar. Agradecida pelo resgate, a Marinha Francesa foi capaz de utilizar a esfera do batiscafo para construir o FRNS-3. As aventuras deste período foram contadas em dois livros, O Mundo do Silêncio (1953, por Cousteau e Dumas) e Plongées sans câble (1954, por Philippe Talliez).
Anos de 1950 a 1970
Em 1949, Cousteau deixou a Marinha da França.
No ano seguinte, fundou a campanha Oceanográfica Francesa, e arrendou o navio chamado Calypso de Thomas Loel Guinness por, simbolicamente, um franco por ano. Cousteau reformou o Calypso como um laboratório móvel para pesquisas de campo e como sua principal embarcação para mergulho e filmagem.
Também cumpriu escavações arqueológicas submarinas no Mediterrâneo, dentre as quais podemos destacar Grand-Congloé (1952).
Com a publicação do seu primeiro livro em 1953, O Mundo do Silêncio, previu a existência da habilidade de ecolocalização dos golfinhos. Informou que seu navio de pesquisas, o Élie Monier, estava se dirigindo para o Estreito de Gibraltar, noticiando que um grupo de phocoenidae os estava seguindo. Cousteau mudou o curso para poucos graus a menos que o curso ideal para o centro do estreito, e os golfinhos os seguiram por poucos minutos, separando-se em sentido ao meio do canal de novo.
Aquilo foi uma evidência de que os golfinhos sabiam qual o curso ideal estabelecido, até mesmo se os humanos não soubessem.
Cousteau concluiu que os cetáceos possuíam algo semelhante a um sonar.
Cousteau ganhou a Palme d’Or no Festival de Cannes in 1956 pelo O Mundo do Silêncio, co- produzido por Louis Malle.
Com assistência de Jean Mollard, fez o “Pires de Mergulho” SP-350, um veículo de mergulho experimental que podia alcançar a profundidade de 350 metros. O sucesso do experimento foi batido rapidamente em 1965 por dois veículos que alcançavam 500 metros.
Um ano depois, foi eleito como diretor do Centro Oceanográfico de Mônaco. Dirigiu experimentos de mergulho em saturação (imersões de longa duração e casas debaixo d’água). Além disso foi admitido na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.
• • •
A função da ciência e a felicidade
“A felicidade da abelha e do golfinho é existir. A do homem é descobrir isso e se maravilhar por eles.”
Jacques Cousteau
Jacques-Yves Cousteau
(Saint André de Cubzac, 11 de junho de 1910 — Paris, 25 de junho de 1997)
112 Anos
FONTES

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A Consolidação da Língua Portuguesa

“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”
– Camões, no ‘Soneto Amor é fogo que arde sem se ver’
Camões
Luís Vaz de Camões
(Lisboa[?], c. 1524 – Lisboa, 10 de junho de 1579 ou 1580) [nota 1]
poeta nacional de Portugal
Considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental.
Camões foi um renovador da língua portuguesa e fixou-lhe um duradouro cânone; tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional.
Hoje a sua fama está solidamente estabelecida e é considerado um dos grandes vultos literários da tradição ocidental, sendo traduzido para várias línguas e tornando-se objeto de uma vasta quantidade de estudos críticos.
“Que, nos perigos grandes, o temor
É maior muitas vezes que o perigo.”
– Camões, em ‘Os Lusíadas, canto IV’
Camões viveu na fase final do Renascimento europeu, um período marcado por muitas mudanças na cultura e sociedade, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna e a transição do feudalismo para o capitalismo.
Chamou-se “renascimento” em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da Antiguidade Clássica, que nortearam as mudanças deste período em direção a um ideal humanista e naturalista que afirmava a dignidade do homem, colocando-o no centro do universo, tornando-o o investigador por excelência da natureza, e privilegiando a razão e a ciência como árbitros da vida manifesta.[60][61][62]
Nesse período foram inventados diversos instrumentos científicos e foram descobertas diversas leis naturais e entidades físicas antes desconhecidas; o próprio conhecimento da face do planeta modificou-se depois dos descobrimentos das grandes navegações.
“Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.”
– Camões, em ‘Os Lusíadas’, canto X
O espírito de especulação intelectual e pesquisa científica estava em alta, fazendo com que a Física, a Matemática, a Medicina, a Astronomia, a Filosofia, a Engenharia, a Filologia e vários outros ramos do saber atingissem um nível de complexidade, eficiência e exatidão sem precedentes, o que levou a uma concepção otimista da história da humanidade como uma expansão contínua e sempre para melhor.
O seu linguajar literário foi sempre reconhecido como erudito; Faria e Sousa já dissera que Camões não escrevera para ignorantes.
A influência do seu modelo repercutiu profundamente sobre a evolução da língua portuguesa pelos séculos seguintes.
“Escrevíamos em castelhano e latim, mas não em português, a língua que realmente falávamos. Foi então que aconteceu Camões e outros como ele. E de repente, quem falava português, podia então, ler também, em sua própria língua. Começava ali, há aproximadamente 500 anos atrás, a consolidação da língua que falamos hoje. A saber, a língua portuguesa.” – Professor Paul Sampaio
Sua importância foi tanta, que a data de sua morte foi escolhida para representar todos os símbolos da nação, do povo e da cultura portuguesa – o embrião da cultura brasileira e outras nações da lusofonia, [1][2] comunidade formada pelos povos e nações que compartilham a língua e cultura portuguesas, como Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Damão e Diu e por diversas pessoas e comunidades em todo o mundo. A data de falecimento de Camões deu origem às seguintes datas comemorativas:
- Dia de Portugal
- Dia da Língua Portuguesa
- Dia de Camões
- Dia das Comunidades Portuguesas
- Dia da Raça Portuguesa
FONTES
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Homenagem ao professor José Maria e Presidência do CPP em definitivo com professora Loretana

Diretores e professores de todo o estado de São Paulo, estarão hoje (10) sexta-feira na capital, para homenagear o professor José Maria Cancelliero, que estará entregando em definitivo a Presidência do Centro do Professorado Paulista para a professora Loretana Paolieri Pancera, atual presidente interina. Assista ao vídeo da posse em 2016, quando José Maria Cancelliero foi reeleito presidente do CPP.
As professoras Neuza Aracy Costa Sampaio, Edinea Sita Cucci e Venetia Aparecida de Lima Vieira, estão representando Bauru nesse evento.









“O professor José Maria deixa a Presidência depois de muitos anos de dedicação e luta pela entidade. O CPP sede regional prestou uma homenagem a ele através do seu filho, porque o nosso colega se encontra adoentado. A professora Loretana assumiu e desejamos a ela muitas felicidades.”
– Neuza Aracy Costa Sampaio • Diretora do CPP Bauru
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CPP recebe demonstrativos de pagamento do mês de junho

Objetivo da ação é arrecadar mil cópias de holerites de professores da ativa e aposentados para entregar aos candidatos ao Governo de SP

O Centro do Professorado Paulista solicita aos associados que encaminhem cópia do demonstrativo de pagamento referente ao mês de junho deste ano para que a entidade consiga entregar aos candidatos ao Governo do Estado de São Paulo.A ação tem como objetivo arrecadar mil cópias de holerites de professores da ativa e aposentados, que serão usadas na elaboração de um livro.
A entidade deixa claro que os dados pessoais dos professores, como nome, RG e CPF, serão preservados com uma tarja, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), nº 13.709/2018, que garante maior privacidade e proteção no tratamento de dados. Caso prefira, o associado pode enviar a cópia do holerite já com a omissão das respectivas informações confidenciais.
Segundo o professor Azuaite Martins de França, terceiro vice-presidente do CPP, a iniciativa contribui para mais uma luta da entidade, que vai mostrar a situação em que se encontra o professor e os profissionais da Educação, com descontos exorbitantes e parcos salários.
“Candidato jamais poderá alegar que não sabe quanto ganha um professor. Jamais poderá alegar que não sabia do tamanho dos descontos em holerite em seus pequenos salários. Por isso, precisamos de sua colaboração, para que está ação seja melhor representada, e o CPP, mais atuante na luta pela valorização do magistério”, afirma.
A cópia do holerite, conforme exemplo abaixo, deve ser encaminhada ao e-mail: portal@cpp.org.br.
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O Olhar Afiado como a Navalha

“Não é a pornografia que é obscena, é a fome que é obscena.”
– José Saramago em entrevista no Programa Jô Soares
José de Sousa Saramago ComSE • GColSE • GColCa (Azinhaga, Golegã, 16 de novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de junho de 2010) foi um escritor português.
Saramago foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998.
Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões[2], o mais importante prémio literário da língua portuguesa.
Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.[3]
“A ignorância está se expandindo de maneira aterradora.”
– José Saramago, escritor português, prêmio Nobel de Literatura – Fonte: Revista Veja, Edição 1 677 – 29 de novembro de 2000
Documentário inédito sobre a vida e obra do Prêmio Nobel da Literatura, José Saramago.
No dia em que se assinalam os dez anos da atribuição do primeiro Prêmio Nobel da Literatura da Língua Portuguesa, a RTP exibe um documentário que retrata o percurso singular do escritor José Saramago, que se afirma “pessimista pela razão, otimista pela vontade”.
Durante quase um ano, uma equipe da RTP reconstitui os pontos cardeais em que a vida e obra de Saramago se fundem, num trabalho que aborda a história do escritor português mais lido e conhecido do mundo. Mais do que uma biografia, este documentário pretende dar a conhecer ao grande público os momentos decisivos da vida de um homem que aos cinquenta e três anos não era ainda escritor. Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago imigrou para Lisboa com dois anos.Grande parte da sua vida decorreu na capital, que serve de cenário a alguns dos seus romances. Mas durante a adolescência, foram muitas e prolongadas as suas estadias na aldeia natal, Azinhaga, Golegã, que o marcou para toda a vida. Ficou célebre, o discurso que Saramago proferiu há dez anos na entrega do prêmio Nobel, evocando com emoção os avós Jerómino e Josefa, que dormiam com porcos na cama, única forma de sobreviverem todos. José Saramago frequentou o liceu e a escola industrial mas, por dificuldades econômicas, não pôde prosseguir os estudos. É um homem “Levantado do Chão”, título de uma das suas obras, e título escolhido também, para este documentário. O seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico e neste trabalho reencontramos a oficina dessa época assim como ex-colegas de ofício.
“Perguntou-se a José Saramago:
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– Como podem homens sem Deus serem bons?
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Sua resposta foi:
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– Como podem homens com Deus serem tão maus?”
A 24 de Agosto de 1985 foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e a 3 de Dezembro de 1998 foi elevado a Grande-Colar da mesma Ordem, uma honra geralmente reservada apenas a Chefes de Estado.[4]
“Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros.”
- – reportagem “Literatura: Saramago doutor honoris causa da Universidade Autónoma Madrid”, da Agência Lusa (2007-03-15), publicada pela Rádio Mirasado.
O seu livro Ensaio sobre a Cegueira foi adaptado para o cinema e lançado em 2008, produzido no Japão, Brasil, Uruguai e Canadá, dirigido por Fernando Meirelles(realizador de O Fiel Jardineiro e Cidade de Deus).
Em 2010 o realizador português António Ferreira adapta um conto retirado do livro Objecto Quase, conto esse que viria dar nome ao filme Embargo, uma produção portuguesa em co-produção com o Brasil e Espanha.
“Se sou pessimista é porque o mundo é péssimo, só isso.”
– José Saramago, escritor português, negando que tenha o pessimismo que costumam lhe atribuir– Fonte: Revista ISTOÉ Gente, edição 278 – 06/12/2004
- “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: ‘Isto é um livro sobre o Alentejo‘.”
– citado em “José Saramago: il bagaglio dello scrittore” – Página 41, de Giulia Lanciani – Publicado por Bulzoni, 1996 ISBN 8871199332, 9788871199337 – 256 páginas
- “Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute.”
– pronunciamento no Forum Social Mundial, em Porto Alegre, fevereiro de 2002; citado em “Las leyes antidiscriminatorias en el Mercosur: Impactos de la III conferencia mundial contra el racismo, la discriminación racial, la xenofobia y las formas conexas de intolerancia, Durban, 2001: informe sobre el seminario realizado en Montevideo, 29 y 30 de abril de 2002”, Por Organizaciones Mundo Afro, Publicado por Organizaciones Mundo Afro, 2002 163 páginas
- “Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros.”
– reportagem “Literatura: Saramago doutor honoris causa da Universidade Autónoma Madrid”, da Agência Lusa (2007-03-15), publicada pela Rádio Mirasado.
“Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice.”
– “Cadernos de Lanzarote”, 7 de Julho [de 1994]
- “Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar.”
– Na palestra de abertura do curso “Literatura e poder. Luzes e sombras”, na Universidade Carlos III, em Madri, em 19 de janeiro de 2004, conforme citado por Marco Aurélio Weissheimer, no artigo“Saramago prega retorno à filosofia para salvar democracia”, na Agência Carta Maior.
- “Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”.
– Na palestra de abertura do curso “Literatura e poder. Luzes e sombras”, na Universidade Carlos III, em Madri, em 19 de janeiro de 2004, conforme citado por Marco Aurélio Weissheimer, no artigo“Saramago prega retorno à filosofia para salvar democracia”, na Agência Carta Maior.
- “Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel.”
– “O factor Deus”, publicado em jornal “Público” de 18/09/2001– citado em “A ficção cética” – página 127, de Gustavo Bernardo – Publicado por Annablume, 2004 ISBN 8574194433, 9788574194431 – 272 páginas
“Por que, para que e, a mais importante, para quem, são as três perguntas fundamentais que deveríamos fazer ao primeiro-ministro, ao professor, ao pai, ao filho, quase a propósito de tudo o que ocorre. O problema é que isso dá um pouco de trabalho.”
– artigo “Saramago: A democracia é uma comédia”, da Agência EFE, publicado no Jornal do Brasil em 19/01/2004
- “Se começássemos a dizer claramente que a democracia é uma piada, um engano, uma fachada, uma falácia e uma mentira, talvez pudéssemos nos entender melhor.”
– Revista Veja, Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004
- Escrevo para “tentar entender, e porque não tem nada melhor para fazer”
– citado em reportagem da Efe, em Arrecife de Lanzarote (Espanha), “Saramago diz que escreve por não ter ‘nada melhor para fazer’”, publicada na Folha de São Paulo de 04/02/2007
- “O universo não tem notícia da nossa existência.”
– entrevista a Adelino Gomes, no Público, de 13-11-2005
- “Há uma pergunta que me parece dever ser formulada e para a qual não creio que haja resposta: que motivo teria Deus para fazer o universo? Só para que num planeta pequeníssimo de uma galáxia pudesse ter nascido um animal determinado que iria ter um processo evolutivo que chegou a isto?”
– entrevista a Adelino Gomes, no Público.
- “O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles.”
– Fonte: Estadão Cultura, 17/10/2009
Obras
A Caverna
- “(…) o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós, que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo…”
- “Duas fraquezas não fazem uma fraqueza maior, fazem uma força nova.”
- “A vida é assim, faz-se muito de coisas que acabam, Também se faz de coisas que principiam, Nunca são as mesmas.”
- “Perder tempo a explicar por que gosta seria pouco menos que inútil, há coisas na vida que se definem por si mesmas, um certo homem, uma certa mulhar, uma certa palavra, um certo momento, bastaria que assim o tivéssemos enunciado para que toda a gente percebesse de que se tratava, mas outras coisas há, e que até poderão ser o mesmo homem e a mesma mulher, a mesma palavra e o mesmo momento, que, olhadas de um ângulo diferente, a uma luz diferente, passam a determinar dúvidas e perplexidades, sinais inquietos, uma insólita palpitação…”
- “… enquanto houver vida, haverá esperança. Sim, é certo, por mais espessas e negras que estejam as nuvens sobre nossas cabeças, o céu lá por cima estará permanentemente azul, mas a chuva, o granizo e os coriscos é sempre para baixo que vêm, em verdade não sabe uma pessoa o que pensar quando tem de fazer-se entender com uma ciência dessas”
- “Obrigado por teres posto a tua mão sobre a minha”
- “As coisas que parecem ter passado são as que nunca acabam de passar”
- “Ainda que te possa parecer estranha a comparação, os gestos, para mim, são mais do que gestos, são como desenhos feitos pelo corpo de um no corpo de outro.”
- “O momento das carícias voltou a entrar no quarto, pediu desculpa por ter-se demorado tanto lá fora, Não encontrava o caminho, justificou-se, e, de repente, como aos momentos algumas vezes acontece, tornou-se eterno.”
- “A pena pior, minha filha, não é a que se sente no momento, é a que se vai sentir depois, quando já não houver remédio, Diz-se que o tempo tudo cura, Não vivemos bastante para tirar-lhe a prova.”
- “…assim é que a vida deve ser, quando um desanima, o outro agarra-se às próprias tripas e faz delas coração”
- “Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegam-nos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida. “
A Noite
- “Não se pode trabalhar num esgoto sem cheirar a esgoto”
Ensaio sobre a Cegueira
- “Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia raízes a um palmo do chão. Cavaram à vez o motorista, os dois polícias e o primeiro cego. Perante a morte, o que se espera da natureza é que percam os rancores a força e o veneno, é certo que se diz que o ódio velho não cansa, e disso não faltam provas na literatura e na vida, mas isto aqui, a bem dizer, não era ódio, e de velho nada, pois que vale um roubo de um automóvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos ainda no mísero estado em que se encontra, que não são precisos olhos para cavar mais fundo que três palmos.”
- “A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nós puséssemos a prever todas as consequências dele a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”
- “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos, façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”
“Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos mas então deixará de ser humanidade.”
- “O mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.”
- “A maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há.”
- “Perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, Morreu”
- “Na morte a cegueira é igual para todos.”
- “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.”
- “O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, só por si, já é um alívio, Daqui não passarei.”
- “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”
- “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
LEIA o LIVRO em PDF – ensaio-sobre-a-cegueira-jose-saramago
Ensaio sobre a Lucidez
- “a fé, abençoada seja ela para todo sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta.”
- “Aqui, cada um com seu desgosto e todos com a mesma pena.”
- “…é o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar.”
- “O código genético disso a que, sem pensar muito, nos temos contentado em chamar natureza humana, não se esgota na hélice orgânica do ácido desoxirribonucléico, ou DNA, tem muito mais que se lhe diga e muito mais para nos contar, mas essa, por dizê-lo de maneira figurada, é a espiral complementar que ainda não conseguimos fazer sair do jardim de infância, apesar de multidões de psicólogos e analistas das mais diversas escolas e calibres que têm partido as unhas a tentar abrir-lhe os ferrolhos.”
Memorial do Convento
- “Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou nela, ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados, os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido, prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou no alto da noite, entre as nuvens, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram.”
- “Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e tem tanto para dizer, é a grande interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta.”
- “Enferrujam- se os arames e os ferros, cobrem-se os panos de mofo, detrança-se o vime ressequido, obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína.”
- “Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu”
- “Talvez as lágrimas não sejam mais do que isso, o alívio de uma ofensa”
- “Voando a máquina, todo o céu será música”
- “Abençoem-se um ao outro, é quanto basta, pudessem todas as bênçãos como essa ser”
- “Não há nada mais triste que uma ausência (…), só fica uma pungente melancolia, esta que faz (…) sentar ao cravo e tocar um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas como se estivessem olhando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos.”
- “Vestem a rainha e o rei camisas compridas, que pelo chão arrastam, a do rei somente a fímbria bordada, a da rainha bom meio palmo mais.”
José Saramago em fevereiro de 2006, em Granada, Espanha.
A Jangada de Pedra
- “José Anaiço está ao lado de Joana Carda mas não lhe toca, compreende que não deve tocar-lhe, ela compreende-o também, há momentos em que mesmo o amor deve conformar-se com a sua insignificância, perdoai que assim reduzamos o extremo dos afetos a quase nada, ele que em outras ocasiões é quase tudo.”
- “Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores (…)”
- “Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias (…)”
- “Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento.”
- “(…)os motivos, de que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, outras vezes nem juntando todos, se as vidas de cada um de você não lhes ensinaram isto, coitados, e digo vidas, não vida, porque temos várias, felizmente vão se matando umas às outras, se não não poderíamos viver”.
- “(…)o fato de ter dito que não conhecia Lisboa, quando entrou lá, há dois meses, não depões contra a hipótese, pode simplesmente não ter a reconhecido, como não a reconheceriam hoje os fundadores fenícios, os povoadores romanos, os dominadores visigódicos, acaso com algum vislumbre os muçulmanos, e cada vez mais confusamente os portugueses.”
As Intermitências da Morte
- “As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca.” […] “Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação,” […] “Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta.”
- “Com as palavras todo cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas.” […] “Porque as palavras, se não o sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixaram de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados.”
- “Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberá como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais que isso, os nomes que lhes deste,”
- “A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.”
- “A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste.”
- “A prudência só serve para adiar o inevitável, mais cedo ou mais tarde acaba por se render.”
- “É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra.”
- “Saberemos cada vez menos o que é um ser humano.”
Todos os nomes
- “O corpo que sonha é real, portanto, salvo opinião mais autorizada, também tem de ser real o sonho que ele estiver a sonhar.”
- “… como se o tempo houvesse encolhido todo, de trás para diante e de diante para trás, comprimido em um instante compacto…”
- “O tempo pusera-se a contar os dias desde o princípio, agora usando a tábua de multiplicação para tirar o atraso. (…) O tempo, ainda que os relógios queiram convencer- nos do contrário, não é o mesmo para toda gente.”
- “O efeito da queda poderia ser acabar-se-lhe a vida, o que sem dúvida teria a sua importância de um ponto de vista estatístico e pessoal, mas que representa isso, perguntamos nós, se, sendo a vida biologicamente a mesma, quer dizer, o mesmo ser, as mesmas células, as mesmas feições, a mesma estatura, o mesmo modo aparente de olhar, ver e reparar, e sem que a estatística se tivesse podido aperceber da mudança, essa vida passou a ser outra vida, e outra pessoa essa pessoa.”
- “Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós”
- “O acaso não escolhe, propõe”
- “O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto.”
- “Para ela, vá lá entender a alma humana, o facto de não ver as paredes do cárcere, as próximas e as distantes, era o mesmo que se elas tivessem deixado de estar ali, era como se o espaço se tivesse alargado, livre, até ao infinito, como se as pedras não fossem mais do que o mineral inerte de que são feitas, como se a água fosse simplesmente a razão da lama, como se o sangue corresse só dentro das suas veias, e não fora delas.”
- “Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto, transpostas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão (…), meu caro, tens de aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro”
- “O tempo psicológico não corresponde ao tempo matemático.”
- “… a efetiva impossibilidade de medir esse tempo a que chamamos de alma…”
- “Não creio que haja maior respeito que chorar por alguém que não se conheceu.”
- “Aproximou-se duma sepultura e tomou a atitude de alguém que estivesse a meditar profundamente na irremissível precariedade da existência, na vacuidade de todos os sonhos e de todas as esperanças, na fragilidade absoluta das glórias mundanas e divinas.”
- “Apesar disso, o Sr. José entrou em casa molhado de cima a baixo. Despiu rapidamente a gabardine, mudou de calças, de peúgas e de sapatos, esfregou com uma toalha o cabelo que escorria, e enquanto fazia tudo isso prosseguiu no seu diálogo interior, É ela, Não é ela, Podia ser, Podia ser, mas não era, E se era, Sabê-lo-ás quando encontrares a do verbete, Se for ela, dir-lhe-ei que já nos conhecíamos, que nos vimos no autocarro, Não se lembrará, Se não demorar muito tempo a encontrá-la, lembra-se de certeza, Mas tu não queres encontrá-la em pouco tempo, talvez nem em muito, se realmente o quisesses teria ido procurar o nome à lista telefônica, é por aí que se começa, Não me lembrei, a lista está lá dentro, Não me apetece entrar agora na Conservatória, Tens medo do escuro, Não tenho medo nenhum, conheço aquela escuridão como a palma das minhas mãos, Diz-me antes que nem a palma das tuas mãos conheces, Se é isso que pensas, deixas- me ficar na minha ignorância, também os pássaros cantam e não sabem porquê”.
O Conto da Ilha Desconhecida
- “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.”
- “Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver.”
A Viagem do Elefante
- “uma vaca se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender- se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais. (…) o primeiro a falar foi o soldado que sabia muito de lobos, a tua história é bonita, disse (…), a vaca não poderia resistir a um ataque concertado de três ou quatro lobos, já não digo doze dias, mas uma única hora, Então, na história da vaca lutadora é tudo mentira, Não, mentira são só os exageros, os arrebiques de linguagem, as meias verdades que querem passar por verdades inteiras, Que crês tu então que se passou, (…), Creio que a vaca realmente se perdeu, que foi atacada por um lobo, que lutou com ele e o obrigou a fugir talvez mal ferido, e depois se deixou ficar por ali pastando e dando de mamar ao vitelo, até ser encontrada, E não pode ter sucedido que viesse outro lobo, Sim, mas isso já seria muito imaginar, para justificar a medalha ao valor e ao mérito um lobo já é bastante. A assistência aplaudiu pensando que, bem vistas as coisas, a vaca merecia a verdade tanto quanto a medalha.”
- “Como escreveu o poeta, os pinheiros bem acenam, mas o céu não lhes responde. Também não responde aos homens, apesar de estes, em sua maioria, saberem desde pequenos as orações precisas, o problema está em acertar com uma língua que deus seja capaz de entender.”
- “Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram.”
- “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.”
O Homem Duplicado
- “Acordou uma hora depois. Não sonhara, nenhum horrível pesadelo lhe havia desordenado o cérebro, não esbracejou a defender-se do monstro gelatinoso que se lhe viera pegar à cara, abriu apenas os olhos e pensou, Há alguém em casa. Devagar, sem precipitação, sentou-se na cama e pôs-se à escuta. O quarto é interior, mesmo durante o dia não chegam aqui os rumores de fora, e a esta altura da noite, Que horas serão, o silêncio costuma ser total. E era total. Quem quer que fosse o intruso, não se movia de onde estava. Tertuliano Máximo Afonso estendeu o braço para a mesa-de-cabeceira e acendeu a luz. O relógio marcava quatro e um quarto. Como a maior parte da gente comum, este Tertuliano Máximo Afonso tem tanto de corajoso como de cobarde, não é um herói desses invencíveis de cinema, mas também não é nenhum cagarola, dos que se mijam pelas pernas abaixo quando ouvem ranger à meia-noite a porta da masmorra do castelo. É verdade que sentiu eriçaram-se-lhe os pêlos do corpo, mas isso até aos lobos sucede quando se enfrentam a um perigo, e a ninguém que esteja em seu juízo perfeito lhe passará pela cabeça sentenciar que os lupinos são uns miseráveis cobardes. Tertuliano Máximo Afonso vai demonstrar que também não o é.”
- “Às vezes pergunto-me se a primeira culpa do desastre a que este planeta chegou não terá sido nossa, disse, Nossa, de quem, minha, sua, perguntou Tertuliano Máximo Afonso, fazendo-se interessado, mas confiando que a conversa, mesmo com um início tão afastado das suas preocupações, acabasse por levá-los ao âmago do caso, Imagine um cesto de laranjas, disse o outro, imagine que uma delas, lá no fundo, começa a apodrecer, imagine que, uma após outra, vão todas apodrecendo, quem é que poderá, nessa altura, pergunto eu, dizer onde a podridão principiou, Essas laranjas a que está a referir-se são países, ou são pessoas, quis saber Tertuliano Máximo Afonso, Dentro de um país, são as pessoas, no mundo são os países, e como não há países sem pessoas, por elas é que o apodrecimento começa, inevitavelmente, E por que teríamos tido de ser nós, eu, você, os culpados, Alguém foi, Observo-lhe que não está a tomar em consideração o fator sociedade, A sociedade, meu querido amigo, tal como a humanidade, é uma abstracção, Como a matemática, Muito mais do que a matemática, ao pé delas a matemática é tão concreta como a madeira desta mesa”.
História do Cerco de Lisboa
- “Todo o romance é isso, desespero, intento frustrado de que o passado não seja coisa definitivamente perdida. Só não se acabou ainda de averiguar se é o romance que impede o homem de esquecer-se ou se é a impossibilidade do esquecimento que o leva a escrever romances.”
- “Porém, o mal das fontes, ainda que verazes de intenção, está na imprecisão dos dados, na propagação alucinada das notícias, agora nos referíamos a uma espécie de faculdade interna de germinação contraditória que opera no interior dos factos ou da versão que deles se oferece, propõe ou vende, e, decorrente desta como que multiplicação de esporos, dá-se a proliferação das próprias fontes segundas e terceiras, as que copiaram, as que o fizeram mal, as que repetiram por ouvir dizer, as que alteraram de boa-fé, as que de má-fé alteraram, as que interpretaram, as que rectificaram, as que tanto lhes fazia, e também as que se proclamaram única, eterna e insubstituível verdade, suspeitas, estas, acima de todas as outras.”
- “Orientamo-nos por normas geradas segundo consensos, e domínios, mete-se pelos olhos dentro que variando o domínio varia o consenso, Não deixas saída, Porque não há saída, vivemos num quarto fechados e pintamos o mundo e o universo nas paredes dele.”
Manual de pintura e caligrafia
- “Um homem avança por espaços que a arquitetura organizou, por salas povoadas de rostos e figuras – e certamente não sai sendo o que era ao entrar, ou mais lhe valera ter passado de largo.”
- “Enquanto eu durmo, este povo silencioso de estátuas e pinturas, esta humanidade remanescente, paralela, continua de olhos abertos a velar pelo mundo a que, dormindo, renunciei. Para que o possa encontrar novamente ao descer à rua, mais velho eu e precário, porque mais duram afinal as obras da pedra e da cor do que esta fragilidade de carne.”
- “Verificar, simples opinião minha, é a verdadeira regra de ouro.”
O ano da morte de Ricardo Reis
- “Se não dissermos as palavras todas, mesmo absurdamente, nunca diremos as necessidades.”
- “As verdades são muitas e estão umas contra as outras, enquanto não lutarem não se saberá onde está a mentira.”
- “A verdadeira prisão é aceitar estar preso.”
- “O destino é a ordem suprema, a que os próprios deuses aspiram, E os homens, que papel vem a ser o dos homens, Perturbar a ordem, corrigir o destino, Para melhor, Para melhor ou para pior, tanto faz, o que é preciso é impedir que o destino seja destino.”
Política
- Há uma tendência autoritária em muitos países. Nada restou dos ideais. A esquerda sofre uma espécie de tentação maligna que é a fragmentação. Não vejo nada mais estúpido do que a esquerda. Uns enfrentam os outros, por grupos, por partidos, por opções.
– 10.julho.2007, em Bogotá; Fonte: Globo Online – RJ (11/07/2007) [1]
José Saramago
ComSE • GColSE Nascimento 16 de novembro de 1922
Azinhaga, Golegã, PortugalMorte 18 de junho de 2010 (87 anos)
Tías, Província de Las Palmas, Canárias, EspanhaNacionalidade
portuguêsCônjuge Isabel da Nóbrega (1970-1986), Pilar del Rio (1988-2010) Ocupação Serralheiro mecânico, funcionário administrativo, técnico editorial, escritor, tradutor, jornalista, poeta, cronista, dramaturgo, contista, romancista, teatrólogo, argumentista, ensaísta Prémios Prémio Cidade de Lisboa (1980)
Prémio Literário Município de Lisboa (1982)
Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística (1983, 1985)
Prémio D. Dinis (1984)
Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1985)
Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 1991
Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa(1991)
Grande Prémio Vida Literária APE/CGD (1993)
Prémio Camões 1995
Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1995)
Prémio Nobel de Literatura 1998Religião Ateu[1] Página oficial Fundação José Saramago Assinatura 
FONTES

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👏 59 Anos de lutas e conquistas para o professorado de Bauru e região





















































































